O que Psicologia tem a ver com Política, Cristiane?

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      O que Psicologia tem a ver com Política, Cristiane?

                                                        Por Cristiane Jatene*

                           

Essa pergunta tem sido dirigida a mim muitas vezes, nos últimos dez anos! 

Ouvi de amigos, “adoro te ouvir falar de Psicologia, mas não quero falar de Política”. Ou, ainda, “acho que você deveria falar só de Psicologia e não de Política”. 

Quando fiz por três anos as lives “Conversa Cidadã”, um título que criei quando a Alcina me convidou para falar o que dizia para ela em conversas privadas, no espaço que ela tem no coletivo Unidos por Artur Alvim (@unidosporarturalvim), um coletivo da Zona Leste de São Paulo, era comum, mesmo eu sendo historiadora, a pergunta que dá título a este post. 

Vou contar meu percurso e o que acredito. 

Comecei a fazer terapia aos 19 anos, já era bailarina, a seguir, fiz faculdade de História para ser jornalista, fui produtora executiva por quase uma década de programas de humor do Ciro Jatene (@cirojatene), que Jô Soares denominou de “O homem das mil vozes”, por sorte, meu irmão. Depois, fiz Psicologia. 

Quando me formei já fazia terapia há mais de duas décadas e entendi que precisaria ter uma formação em Terapia de Casal, Família e Comunidade. Fiz minha formação na PUC/SP (@puc_sp)

Quando as democracias começaram a ruir, passei a entender que muitas questões fundamentais do existir humano, que eu considerava do âmbito privado, individual ou familiar, eram decorrência direta e inexorável do âmbito social e político. Acho que a Psicologia como tem sido conduzida, nos seus poucos mais de 200 anos de existência, muitas vezes, encobre esse fato, o que considero ruim.

Ex: muitas vezes nossos “problemas de saúde mental” decorrem da forma como somos obrigados a viver para sobrevivermos num mundo capitalista e individualista; muitas vezes, as relações são difíceis porque a inteireza e a sinceridade não condizem com as máscaras sociais que uma sociedade da imagem e da aparência exige. 

Fiz, então, um mestrado na Universidade de Lisboa (@ulisboa) em “Sociedade, Risco e Saúde”, na área da Sociologia, e a pesquisa enorme e profunda que foi minha monografia mapeou os principais temas da contemporaneidade quanto ao embate entre preservação da vida e aprimoramento da democracia (campo progressistas) e necropolítica (extrema direita). 

Minha abordagem em clínica (online, no Brasil e em Portugal) e em pesquisa é a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica ou Fenomenologia da Facticidade, que tem como base o pensamento de Martin Heidegger. Fiz minha formação na Associação Brasileira de Daseinsanalyse (@dasein_abd) e tenho o compromisso pessoal e profissional, a partir do meu existir e do meu horizonte existencial, de esclarecer do que se trata essa abordagem. Acredito que essa forma de acesso aos fenômenos humanos e sociais não pode dissociar o individuo ou as relações das fases do ciclo vital, das tragédias e maravilhas pessoais, e do âmbito no qual decorrem. No momento, esse âmbito é um mundo globalizado e colonizado pelas Big Techs e pela enorme concentração de renda a nível mundial.

Muito se fala das “bolhas” criadas pelas redes sociais. O mundo acadêmico, ao separar as disciplinas, criou essas bolhas muito antes. Psicologia e Política podem estar apartadas no mundo acadêmico, mas não no mundo fático, onde nosso existir compartilhado decorre.

Considero que minha formação é plural e decorrência do meu percurso como pessoa e como profissional. Não acredito mais num autoconhecimento que não considere as diferentes fases de vida, com suas mazelas e benesses, nem que não considere de que forma o tempo histórico interfere e delimita cada escolha do ser humano que me procura para que eu traduza seu existir para ele, lhe devolvendo a si mais próximo de si, como dizia minha supervisora Bilê Tatit Sapienza.

Espero ter esclarecido, pelo menos em parte o título desse artigo, e convido a todos que quiserem a participarem dessa conversa.

PS: Para mim, o maior mal da humanidade são as formas de Colonialismo, que propiciam a Necropolítica, as desigualdades e promovem  mal estar social e favorecem os ditos “transtornos” em  Saúde Mental”. Prefiro o termo “Saúde Existencial”. 

#Psicologia #Politica #Fenomenologia #Heidegger #BileTatit #CristianeJatene

*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa.

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