terça-feira, 20 de maio de 2025

O psicoterapeuta é um técnico? - Cristiane Jatene

 O perigo de acreditar que a terapia é realizada por um técnico e não por um ser humano que além do tempo de estudos formais e informais, da supervisão clínica e da terapia pessoal, não seja um ser humano que deve, para ser bom terapeuta, conhecer seus valores, preconceitos, sua ética, para que assim, e só assim, possa entrar no universo do seu paciente e ajudá-lo a conhecer-se e a conhecer suas possibilidades de escolha.


Quanto mais tempo de vida, analisada, permeada de meditações profundas e críticas, mais o terapeuta entende a condição humana. Quanto mais ligado às artes e conhecedor da poética da vida e dos seus talentos, mais o terapeuta é capaz de acompanhar seu paciente na descoberta de si, dos seus valores, preconceitos, possibilidades, limitações, dúvidas. 


Nenhum terapeuta é especialista na vida de alguém, na vida de um casal, de uma família, de uma comunidade. O terapeuta deve sim ser especialista em si e no máximo que puder saber sobre o corpo de conhecimento disponível sobre o ser humano. O terapeuta tem sua existência em jogo no processo terapêutico dos seus pacientes, porque o processo é construído em conjunto.


Uma terapeuta divorciada, que o ex-marido encontrou uma pessoa e que ao atender um homem casado e infeliz e que está apaixonado por outra pessoa e quer tomar uma decisão e induz o paciente a pender para sua relação atual, por identificar-se com a mulher com a qual ele está casado, não está exercendo a co-construção de um processo terapêutico. Esse e outros tipos de absurdos temos visto acontecer todos os dias. Quanto mais o paciente pensa que o terapeuta é um técnico como seria um mecânico de carros ou um engenheiro civil, mais passível de ser manipulado pelo suposto poder de saber do paciente ele fica.

Quanto mais o terapeuta quiser poder, menos terapeuta ele será.


Terapêutico é ser capaz de ampliar visões, abranger ângulos, não responder de forma fechada e vertical.


Estamos diante de uma situação muito delicada e que do mesmo modo que pode resultar em grande beleza, de desabrochar, frutificar, pode ser um processo deletério.


Estejamos atentos. Como pacientes. Como terapeutas.


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O que é a vida? - Cristiane Jatene

 No ano 2000, o ator Antônio Abujamra começou a apresentar o programa “Provoca”, na TV Cultura, e o fez até sua partida, em 2015. O programa foi retomado em 2019 e desde então vem sendo apresentado pelo multimídia Marcelo Tás.


A famosa pergunta do final segue sendo a mesma para cada um e todos os entrevistados: “O que é a vida”?


A cada momento ou fase de nossas vidas podemos responder de forma diferente, assim como cada pessoa responde de forma diferente. Por isso, há mais de duas décadas as respostas para a mesma pergunta são inúmeras.


Prestes a completar 58 anos de vida, sendo terapeuta há mais de quinze anos, historiadora há mais de trinta anos, tendo feito quase tudo em termos de artes, meditação, autoconhecimento, incluindo absurdos trinta e oito anos de psicoterapia, me arrisco a dar uma possível resposta para esse meu momento.


Falo como vivente e como terapeuta que acompanha a vida de viventes diversos.


A vida é saber se parir, renascer, quantas vezes ela solicitar. Caso não consigamos nos parir inúmeras vezes passamos a sobreviver, não morremos, mas não vivemos, no sentido de estarmos plenamente presentes para nós, para os outros e para o mundo, não estamos ausentes, mas não estamos presentes. 


A vida nos traz muitas perdas, quanto mais vivemos mais perdemos, o que é um paradoxo. 


Ganhar tempo de vida é perder. 


Perder pessoas queridas, possibilidades, habilidades, ilusões, sonhos não realizados e os já realizados. Perder pessoas vivas às quais nos dedicamos, carregamos no colo, protegemos, acalentamos, crianças e adolescentes que se tornaram adultos ingratos, repugnantes. Adultos que nos receberam e ajudaram a nos criar e que depois nos tratam como quase estranhos. Amigos que se tornam ex-amigos do dia para a noite. Perder a esperança de ver ainda um país justo, de um mundo sustentável.


Mesmo perdendo tanto, mesmo não conseguindo se parir, renascer, é difícil encontrar alguém que queira abrir mão da vida. Talvez, porque a qualquer momento podemos ganhar. Tudo. Uma nova vida, uma renovada identidade, uma nova descoberta. 


Ficamos ali à espreita, meio descrentes, mas sabendo que a poética da vida sempre foi e sempre será a surpresa, o surpreendente, o que nos causa perplexidade, para o bem ou para o mal e é claro que esperamos pelo espanto do maravilhoso. Por que não?



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Ensaio sobre a memória e a identidade - Cristiane Jatene

        No filme "Eternamente Alice" (Still Alice) a personagem principal, interpretada por Julianne Moore, vítima de Alzheimer precoce, aos 50 anos, no auge de sua vida profissional, por um problema genético, nos mostra como se forma, o que chamamos de “nossa identidade” e como é  perdê-la. Num discurso, em uma associação para doentes como ela, explica que sem as próprias memórias não pode ser ela mesma. E o que seriam nossas memórias? 

Numa resposta rápida e certeira, diria que é o que lembramos do que ainda somos e do que não somos mais. É lembrarmos, também, do que pensamos ser um dia, mas nunca fomos, lembrarmos do que queremos ser e do que temos sido. A memória tem a ver com nossa relação conosco. Com a significação e ressignificação que fazemos do do nosso arco existencial. A ressignificação do passado é sempre dada pelo que viemos a ser, pelo futuro. Podemos dizer que se não temos mais o que ressignificar, como uma folha em branco, é difícil criar o nosso vir-a-ser.


      Nossas memórias são a lembrança de nossa história passada, o sido, aquilo que já não é mais e nunca mais voltará a ser. O que escolhemos e o que deixamos de escolher vai formando a história aberta que somos, até findarmos. O sido não é mais, no  entanto, ele nos posiciona sobre nossa identidade, até o ponto do percurso em que estamos. Sabermos quem não somos mais também compõe nossa identidade.


        Essa visão de ser humano, como sendo o desenrolar de seu existir, tendo a própria existência em aberto como sua essência, como o que compõe e forma o si mesmo, e essa ideia de que precisamos saber o que vivemos para saber quem estamos sendo rumo ao porvir, é uma ideia que difere da visão do humano das doutrinas religiosas, por exemplo. No geral, as religiões partem do pressuposto que nascemos com uma essência espiritual e a encarnamos num corpo transitório. Ou melhor, nós seríamos essa essência e o corpo o invólucro temporário dessa essência.


       Há as concepções teóricas que apontam para a direção que diz que nossa essência se forma na infância ou que temos um caráter, que seria, de alguma forma, permanente. 


Decorrente da visão que nossa essência se forma na infância, nossas relações repetiriam as relações da infância.

         

   Temos, também, a visão de que aprendemos um determinado repertório de crenças e comportamentos e que este poderia se transformar com aprendizados novos. 


      Outra visão diz que nossa herança familiar em termos de desenrolar da vida poderia ter o poder de fazer com que repitamos histórias que não conhecemos ou, ainda, que poderíamos nos contrapor às histórias conhecidas, mas tendo-as ainda como forte referência.


     Nesses casos todos, nossa autoria seria um tanto  limitada. Nosso esforço, se quiséssemos, seria no sentido de buscarmos a nossa originalidade, diante da primazia de nossas infâncias ou da potência das sagas de nossas famílias (começadas sabe-se lá quando), ou diante das nossas crenças e repertório comportamental aprendidos no início de nossos percursos de vida. 


Essas visões consideram pouco ou nada o mundo geopolítico cultural no qual nosso existir se desenrola.


       Ter a memória como fundamental para sabermos quem somos, deixa claro que quem somos se dá pela nossa história, pelo desenrolar da nossa vida e não pelo nosso passado. E por que? Porque História não é somente o passado. História é o desenrolar, que engloba passado, presente e futuro, por isso somos no gerúndio, somos sendo, não somos o sido, nem o provir, embora sendo somos um constante vir-a-ser. Os três juntos (sido, sendo, vir-a-ser), no acontecer que se mantém como uma história única, que vem transcorrendo e continuará transcorrendo, enquanto estivermos vivos. 


Cada transcurso historial é original, embora possa conter elementos de repetições e da falta de originalidade, citadas acima. Nesse sentido, de sermos uma história original que se desenrola surpreendentemente, enquanto vivos estivermos, o que tem primazia em nossa vida é o futuro. 


Eu me lembro de uma pessoa próxima que viveu uma situação surpreendente aos 90 anos. Ela me dizia: "Nunca pensei que aos 90 anos viveria uma situação como esta, não achei que teria novidades". Como ela ainda estava viva, a história continua a se desenrolar.



     No entanto, caso o passado não possa ser lembrado, revisitado, reavaliado, ressignificado (quantas vezes forem necessárias e sempre de acordo com que o que aconteceu depois dele) perdemos parte de nós. Da mesma forma perdemos parte de quem somos ao perdemos por morte pessoas que co-fundaram nossa identidade. Sim, pois se eu sou eu, filho de fulano, amigo de cicrano e esses dois morreram, não existem mais para o mundo, quem sou eu?

 

E quando há uma separação? De uma instituição, empresa ou pessoa. Quem sou eu se costumava ser o estudante de tal Universidade e agora sou um desempregado? Quem sou eu se costumava ser funcionário de determinada empresa ou ter um cargo público e agora sou um aposentado? Quem sou eu se costumava ser marido de Maria e agora Maria é namorada de outro. Indo por essa via, podemos perceber o óbvio. Nossa identidade está sempre em transformação e é sempre co-fundada, co-escrita por nossas relações. 


      Podemos confundir transformação com mudança, já que transformação engloba sempre, e necessariamente, mudança. No entanto,  transformações englobam permanência. Algo que se transforma permanece algo, caso contrário não poderia ter se transformado. Um relacionamento que acabou, um grupo de amigos que estudou em determinada escola e se dissolveu, uma casa demolida são exemplos de coisas que se transformaram ao deixarem de existir. No entanto, permanecerão como um ex relacionamento, um ex grupo, uma casa que existia naquele local. Fizeram parte de momentos ou fases da história das vidas, da instituição, da cidade. Mas não existem mais. 


No caso das pessoas, das histórias que somos, a diferença é um pouco mais sútil. Não existimos mais como as pessoas que fomos, somos outras, mas, ainda assim, somos a mesma pessoa, sendo outra. E este sendo é o que nos define. Estamos sempre sendo, o que pressupõe a abertura da história para a continuidade da escrita. 


Eu me lembro de uma mostra muito interessante sobre o cineasta Frederico Fellini, exibida em São Paulo, em 2012. Era uma mostra muito rica, com desenhos, fotos e textos. Buscava relatar o processo de criação de Fellini. Na sala final, um vídeo no qual era exibida a cena famosa de Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg em  "La dolce vita". Ela, linda, maravilhosa, sedutora, já dentro da água, chamando Marcelo. Uma cena clássica da história do cinema e que tornou a atriz famosa. Num outro vídeo eram exibidas cenas da atriz idosa. A imagem, muito humana e real, comparada ao outro vídeo, parecia uma caricatura, inclusive pelo fato da atriz se expor sem pudor. Foi uma genialidade proposital da exposição. Anita era ela mesma, mas não era mais aquela Anita anterior. Ela havia se transformado, mas somente como história ela poderia reconhecer-se. E nós, os espectadores, só poderíamos reconhecer aquela pessoa, aquela vida através do conhecimento daquele fio, chamado história, chamado identidade, que veio até o momento da vida daquela senhora idosa, de cabelo longo, gorda, que, por fim, parecia uma caricatura, mas não era. Era aquela mulher que não é mais, era aquela mulher em outra fase da história que é, como todos nós, Anita é um fio historial.


    Nesse ponto, me lembro de um belo artigo de Marcelo Gleiser publicado na Folha, em 2015, a respeito do artigo de Oliver Sacks contando sua vida (para falar de sua morte iminente) e de como Gleiser interpreta a vida de médico de Oliver em relação a seus pacientes. Ele diz que por sermos história precisamos de ouvinte, senão seria o esquecimento. E que somente algumas pessoas especiais são capazes de ouvir certas histórias. 


Creio que o ofício de psicoterapeuta necessite de uma sessão inicial, antes da psicoterapia começar para ambas as partes verem se há  interesse na escuta. É claro que o primeiro encontro comporta intervenções, comporta o falante ouvir-se e, assim, já é terapêutico. Mas, precisamos saber se queremos ouvir e acompanhar aquela história e a história precisa saber se nos quer nossa escuta acompanhadora. 


      Ainda sobre sermos, obviamente, transformação, precisamos lembrar, que à medida que a ciência avança no tratamento e prevenção de doenças, as condições de vida melhoram e, consequentemente, a expectativa de vida  aumenta. Com isso, novas categorias vão surgindo no ciclo vital. Houve um tempo em que as fases eram três: ser criança (a infância), ser adulto (juventude e fase adulta), ser ser velho (a velhice) Por isso, batizou-se de "Terceira idade", o que seria a última etapa da vida. Depois, a fase da adolescência (de 12 a 19 anos, mais ou menos) foi introduzida. Mais adiante, os jovens adultos (de 20 a 40 anos, mais ou menos). Depois idosos (tornou-se pejorativo chamar alguém de velho). A introdução de novas fases não cessa. Agora, há uma nova fase do ciclo vital, que compreende o período dos 60 aos 80 anos. Hoje em dia, esses que seriam idosos recolhidos, em outros tempos, são lúcidos e ativos. Por isso, em algumas sociedades, introduziu-se o termo "quarta idade", que compreenderia dos 80 aos 100 anos, já que aqueles jovens idosos de 60 a 80 anos levam o título de terceira idade.  Paremos por aqui. Esta seria uma longa explanação e por tratar-se de outro assunto, não iremos adiante.


      Voltemos ao fato de que somos história e transformação permanente. Nascemos bebês, viramos crianças, depois adolescentes, jovens, adultos, adulto-idoso, idoso. E, sim, sempre vivemos a fazermos diversos lutos. Luto da infância, da escola, do grupo de amigos solteiros que agora são pais de família e vemos pouco, dos sonhos frustrados, dos sonhos realizados (que pena não podermos sonhar, de novo, nossos mais caros sonhos realizados. Ah, se eu pudesse, por exemplo, querer novamente ser psicóloga e conseguir realizar este que foi, talvez, meu maior sonho). 


     E, então, qual seria o problema de perder a memória ou não ter memória? Lembro de outro filme, mais antigo que "Eternamente Alice", que abordava essa questão: a possibilidade de apagarmos episódios. Lembro de uma reportagem televisiva a respeito do filme. A pergunta, para os transeuntes, era: "Você gostaria de poder apagar trechos da sua vida?". A resposta mais interessante, da qual sempre venho me lembrando, foi de uma moça que disse sorrindo: "Não gostaria, senão eu não poderia aprender com meus erros e iria repeti-los". Se aprender com os erros significa, necessariamente, não voltar a repeti-los e, mesmo, se existem erros, no sentido de podermos evitar fazer coisas das quais possamos nos arrepender no segundo seguinte, isso já seria uma outra reflexão. O que essa moça quis dizer? Sem a memória, ela não seria ela, não se lembraria do que fez e considerou erro, do aprendizado que teve com a situação e que lhe permite buscar novas possibilidades ou novos "erros". "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Com Kate Winslet e Jim Carrey, de  2004, é o filme que aborda esse tipo de tema.


     Já que vivemos uma permanente, inevitável e ininterrupta transformação, insisto, qual seria o problema de perder a memória do que vivemos? Sabemos, inclusive, que a memória é falha, seletiva, que, à medida que vamos vivendo e agregando novas experiências e relações, o vivido pode ter seu significado drasticamente modificado. Há memórias, tempos vividos que perdem toda a força pela força do que viemos a viver depois. Inclusive, um sinal de saúde mental é conseguir se renovar, se recriar junto com as inevitáveis transformações da vida.


Parece que por piores que possam ser as memórias, são nossas, nos fazem existir. São a prova de nossa existência, como o discurso da personagem Alice nos mostra.


        Sem memória, não sabemos de onde viemos, sem saber de onde viemos fica difícil saber para quê e para onde estamos indo. Uma vez, há muitos anos, eu tinha por volta de 17 anos, ouvi um grande ator brasileiro, que havia estudado teatro formalmente, criticar atores que não estudam teatro, dizia que via na atualidade daquele momento, montagens sendo feitas com elementos ou similaridades, de montagens de décadas anteriores. E por que?, ele perguntava. Por ignorância, respondia. Fiquei com essa entrevista guardada nas minhas lembranças, sempre. Antes de escrever qualquer trabalho, sempre precisei me certificar se era algo original meu, mesmo podendo ser embasado por certa linha de pensamento e não por outra. 


        A  história, que somos, começa antes de nascermos. Bem antes, aliás. No encontro dos nossos pais ou antes ainda, em tempos que, talvez, nunca conheceremos. Não somente quando somos gerados ou quando um nome nos é dado. 


     Pensar nessa ideia de que existimos antes de existir, sem uma concepção espiritualista ou religiosa é curioso, pois nos dá a clara medida que nunca seremos capazes de conhecermos o todo de quem somos. E não somente a história de nós é anterior a nós, ela pode durar além de nós. Acredito que sempre dure, mesmo que numa história contada e perpetuada por, talvez, uma simples tradição oral de alguém que não conheceremos. No entanto, perder a memória é perder-se de si, mesmo continuando a co-existir, a ser história compartilhada. Alice não sabe mais quem é, mesmo sua filha continuando a saber que aquela mulher sem memória, de quem cuida, é sua mãe, Alice.


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segunda-feira, 12 de maio de 2025

Onde mais? Todos os links! - Cristiane Jatene.

Canal do YouTubehttp://www.youtube.com/@cristianejatene1186

Instagram: http://www.intagram.com/cristiane.jatene

1) O link abaixo, da Universidade de Lisboa, refere-se a pesquisa sobre a resistência social pro-ciência contra a gestão anticiência da pandemia Covid-19, ocorrida no Brasil. O último anexo, anexo XI, refere-se a apresentação oral da pesquisa e é um resumo completo do trabalho: https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10400.5/98745

2) Abaixo, todos os artigos sobre cinema e conjuntura política publicados no portal do Instituto de Cultura Árabe (ICARABE). Os artigos estão ordenados do mais novo para o mais antigo.

- Artigo sobre o filme "Retrato de um certo Oriente"https://www.icarabe.org.br/cinema/retrato-de-um-certo-oriente-o-filme-e-mais-uma-parte-da-identidade-brasileira-perdida

- Artigo sobre o filme "O professor", filme de abertura da Mostra Mundo Árabe de Cinema/ 2024 e Reflexões sobre a Palestina:  https://www.icarabe.org.br/cinema/artigo-mostra-mundo-arabe-e-reflexoes-sobre-palestina

- Artigo sobre o filme "Ventre Materno", filme de abertura da Mostra Mundo Árabe de Cinema/ 2023:   https://www.icarabe.org.br/index.php/artigo/artigo-mostra-mundo-arabe-de-cinema-ventre-materno-por-que-e-complicado

- Artigo sobre o filme "Caixa de Memórias", filme de abertura da Mostra Mundo Árabe de Cinema/ 2022: https://www.icarabe.org.br/node/4229

- Debate sobre o filme "Bagdá vive em mim", apresentado na Mostra Mundo Árabe de Cinema/2021https://www.youtube.com/live/3YKrlwA-rnc?si=H1NEWm4sNi53GrHO

- Sobre diversos filmes da Mostra Mundo Árabe de Cinema/2020, apresentados online, durante a pandemia Covid-19: https://www.icarabe.org.br/node/3912

3) Abaixo, dois artigos e um vídeo publicados no portal do Observatório do Terceiro Setor: 

- Artigo sobre a visão cultural da mulher na Justiça Brasileira: https://observatorio3setor.org.br/reflexoes-julgamento-mariana-ferrer-e-visao-cultural-da-mulher/

- Artigo sobre racism@ e Multiculturalismo no Brasil: https://observatorio3setor.org.br/racismo-e-multiculturalismo-no-brasil/

- Vídeo sobre sobreviver emocionalmente quando os planos são cortados por imposições conjunturais, como a pandemia Covid-19: https://observatorio3setor.org.br/como-sobreviver-emocionalmente-em-meio-a-pandemia/

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domingo, 11 de maio de 2025

Os artistas, os tempos e as trilhas sonoras da minha vida - por Cristiane Jatene

Em abril de 2025, foi lançado o documentário "Ritas", que assisti no Cinesesc, durante a mostra de cinema documental "É tudo verdade", era a vida da Rita Lee, contada através da última entrevista dela. É emocionante, mas mais divertido do que triste. Em maio, "Ritas" passará a ser exibido nos cinemas, em todo o Brasil.

Em maio de 2025, quando completa dois anos da partida de Rita, foi lançado o documentário "Rita Lee - Mania de você". No canal Max. Assisti hoje. É uma despedida. A carta de Rita para Roberto e os filhos, Beto, Joao e Antônio é lida e amigos contam sua experiência com ela. O documentário foi gravado há um mês da partida de Rita. Assisti hoje e chorei no final. "Tem que se preparar para este momento (partida de Rita) e não há preparo para isso"*, como diz Beto. A transformação sempre acontece e "a transformação da morte é sermos espírito", como diz a espiritualista (não religiosa, espiritualista) Rita.

Pode-se fazer um paralelo entre os dois documentários e as duas autobiografias de Rita. A primeira, "Uma autobiografia" é sobre a vida, com seus altos e baixos. A segunda, "Outra autobiografia", é sobre o adoecimento e o final, é uma tanatografia. Ambas valem a leitura, como toda autobiografia, a primeira é um retrato do tempo que Rita viveu. Assim como ambos os documentários valem ser vistos.

Rita, além de "fazer um monte de gente feliz", foi generosa. Deixou musicas, livros infantis, livros, documentários.

Quando ela partiu, em maio de 2023, escrevi o texto abaixo que recupero hoje, depois de assistir o segundo documentário. Quando eu era criança, por volta de 12 anos  (hoje, denominado, pré-adolescente) meu pai, brincando, disse, preciso conhecer o filho da Rita Lee para dar-lhe alguma alegria, já que a Rita Lee dá tanta alegria à minha filha. Essa é a prova.

Sinto ser necessário sempre repetir que história não é sinônimo de passado. História é um fluxo contínuo, que vai em várias direções. Cada vez de um modo.


Desdobrar-se no tempo, por um bom tempo, como histórias únicas que somos, que compartilham uma História comum é misturar sentimentos.


Emoção boa, alegria, saudade, tristeza.


Pra sempre Rita Lee será a trilha sonora da minha pré-adolescência e juventude. Da casa dos meus pais repleta de familiares e amigos em festa, com as luzes indiretas que minha mãe gostava e que tornava o ambiente poético e cinematográfico, naquela sala grande, os amigos exilados voltando, nós nas ruas pedindo eleições diretas para presidente, fazendo boca de urna para eleição de prefeito, que voltava a acontecer.


Meu irmão fazendo sucesso na rádio ao vivo, ensinando o humor que muitos fariam décadas depois e trazendo os convites dos shows nos quais cantávamos, dançávamos. Shows de Rita, Gil, Caetano, Gal…


Ainda era o final da Ditadura. A Rota mal encarada sempre estava na porta do Anhembi, nos shows. Uma vez, um rapaz que levantou-se para dançar no show do Caetano, levou um tapa, foi embora. É repugnante saber que  há quem peça a volta dessa barbárie. Quem poderia imaginar que eles tinham voltado pros bueiros, mas não tinham morrido. Eles, os infelizes.


Lança! Lança Perfume. Ooooo, lança…


Canta Rita Lee. Canta porque o Brasil está voltando à sua vocação de ser feliz, de ser criativo, de ser forte por ser muitos em um.  Canta porque os civis vão voltar a governar.


Oooo, lança, lança perfume.


Naquela época, amar era ampliar. Já existia individualismo, mas o Neoliberalismo com sua mesquinhez e separatividade não tinha ganhado o mundo. Os filhos não eram propriedade dos pais e eram proibidos para a família extensa. A família extensa não ficava de fora. Ninguém ficava. Os amigos eram família. A família era amiga.


Lança, menina, lança todo esse perfume.


O Brasil voltava a cheirar bem, a sonhar em ser de novo.


Rita cantava “Lança Perfume” e Gal Costa cantava “Festa no Interior”. Gal Costa que me acompanhou em danças e giros que dei em casa na pandemia, com a regravação de “Avarandado”.


Gal se foi, Rita se retirou. Mais vivas que nunca, são nossos farois que cegam esse Brasil egoísta, odiento e pobre.

Desse lado só riqueza, abundância, arte, força e brilho.


O Tropicalismo e os tropicalistas para sempre vão ensinar que o Brasil é multi.  Multiétnico, multicultural, multi religioso, multicriativo. Essa é nossa força. Que o Tropicalismo seja disciplina obrigatória nas escolas brasileiras como Beatles é nas escolas britânicas.


Viva Rita Lee. Obrigada por tudo.


* Sugiro a leitura do meu texto sobre luto, publicado neste Blog: https://cristianejatene.blogspot.com/2025/04/luto-um-processo-continuo-e-peculiar.html


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terça-feira, 6 de maio de 2025

Famílias contemporâneas sob a ótica dos filhos - por Cristiane Jatene

 Família nuclear, família binuclear e família plurinuclear


Independente da configuração de sua família, todas as crianças terão uma família nuclear. A maioria das crianças terá uma família nuclear e binuclear e grande parte das crianças terá sua família nuclear, suas famílias binucleares e sua família plurinuclear (lanço esse termo).

O termo “família nuclear” é usado para aqueles que moram juntos. Os adultos ou o adulto responsável pela ou pelas crianças.

Família binuclear refere-se a família extensa quando a criança tem pais. Assim, a criança terá a família de cada um dos pais, ambas suas famílias. Portanto, a criança terá o direito de conviver com ambas as famílias, independentemente dos pais serem casados ou separados, independentemente dos pais quererem contato com suas famílias de origem, que são, como dissemos, as famílias extensas da criança (avós, tios, primos, tios-avós, etc.). 

O termo família binuclear foi criado em substituição ao termo família monoparetnal, que referia-se a famílias de pais separados. Entendeu-se à época, que “família monoparental” punha o foco da situação nos adultos, nos pais, e família binuclear punha o foco nos filhos.

No entanto, embora o termo binuclear referia-se ao fato de que a criança passaria a ter duas casas, todas as crianças, se olharmos pela ótica delas, mesmo de pais casados, tem famílias binucleares, já que ela tem dois núcleos familiares, caso tenha um casal de pais, seja heterossexual ou homossexual.

Vemos, assim, que toda criança está sujeita a dificuldades familiares, já que sua família é composta por dois núcleos e que os adultos, responsáveis por ela, detém, na prática o seu direito a essas famílias, que são delas e não são de ambos os pais, cada família é a família de apenas um dos pais.

As famílias plurinucleares podem trazer desafios ainda maiores. E o que seriam famílias plurinucleares? Pensemos numa criança que vem de uma segunda união de seu pai, que já tem um filho de uma primeira união e de uma mãe em primeira união. De cara ele terá suas duas famílias, mais uma terceira família, que é uma das duas famílias do seu irmão. Pensemos que os pais dessa criança se separem. O pai, então, se une a outra mulher, que já tem filhos. Passam, então, a viver juntos. Essa criança terá o núcleo da mãe, o núcleo do pai, o núcleo do irmão mais velho e este núcleo novo, no qual além do pai e do irmão, há uma madrasta e co-irmãos* (crianças ou adolescentes que são filhos em separado de um casal conjugal ou refere-se ao irmão dos seus irmãos). Pense que esse pai se separa. A mãe do menino e sua ex-madrasta entendem que as crianças precisam voltar a conviver. E nesse convívio, a mãe dessa criança conhece o pai dos filhos da ex-madrasta do seu filho e começa a namorar com este homem. Parece confuso? Este exemplo é extraído da minha prática clínica, mas poderia ser da prática clínica de qualquer terapeuta da contemporaneidade.

Junto com o direito dos adultos de se casarem, se separarem, se recasarem, se unirem sem casamento formal, de namorarem quantas pessoas quiserem vieram as crianças com configurações familiares completamente singulares e móveis, muito mais móveis do que a mobilidade que existia quando o divórcio passou a ser uma realidade.

Os adultos escolhem, as crianças não escolhem. Embora a guarda compartilhada seja uma realidade, inclusive legal e embora a vontade dos filhos possam e devam ser consideradas, os filhos tem suas vidas decididas por seus responsáveis. 

Os adultos são responsáveis pelo bem-estar das crianças e adolescentes , por isso, não devem praticar nenhum tipo de impedimento para que convivam com suas famílias, que convivam com parentes, que vejam além da família nuclear. 

No passado, a guarda era prioritariamente da mãe. Hoje mudou. Para o bem dos filhos. O casal conjugal termina, mas o casal parental permanece o mesmo. Quer isso dizer que para os filhos, a mãe sempre será a mesma e o pai sempre será o mesmo.

Na contemporaneidade, há a guarda conjunta, a guarda compartilhada e as configurações são singulares. Há crianças que não dormem dois dias no mesmo local, porque dormem um dia na casa do pai e outro na casa da mãe. E nessas casas podem haver padrasto, madrasta ou o namorado da mãe, a namorada do pai (ou outras configurações no caso de pais homossexuais). 

Como manejar essa vida dadas crianças e adolescentes  com essas possibilidades de seus pais? A criança pode adaptar-se, caso seu bem-estar seja considerado, caso as mágoas e jogos de poder entre suas famílias, seus pais, não a tomem como moeda de barganha. Isso nem sempre é fácil, por isso, nem sempre há receita.

Um ponto que considero fundamental é que se o casal parental está em conflito e vai fazer terapia para melhor lidar com a vida do filho (às vezes, por acordo ou determinação legal), é fundamental que todos, sem exceção, da família desse filho, sejam convidados a irem a essas sessões de terapia. Não pode haver censura. Mesmo que alguém não queira ir (e não vá) é importante que seja convidado. 

Uma terapia de casal parental em conflito, sem a escuta de todos os envolvidos, pode servir apenas para perpetuar o conflito, com pequenos ganhos para o bem-estar da criança, dando a sensação de que “algo está sendo feito em prol da criança”. A terapia de casal parental em conflito, com foco no bem-estar dos filhos, deve ser sempre uma terapia familiar, na qual os filhos e os outros membros de sua família, além do casal parental sejam ouvido.

* O termo co-irmãos é utilizado em terapia familiar para filhos que co-habitam mas não são filhos daquele casal conjugal. Por exemplo: Um homem tem um filho, cuja mãe não é sua esposa atual e sua esposa tem uma filha, cujo pai não é seu marido atual. Essas quatro pessoas são um núcleo familiar e esses filhos são co-irmaos. O termo também é utilizado para os irmãos do seu irmão. Por exemplo, um homem tem um enteado e tem mais filhos com a mãe desse enteado, separa-se e tem outros filhos, com outra mulher. O enteado é co-irmão dos filhos do segundo casamento do referido homem, que tem um enteado do primeiro casamento.

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Terapia de Casal - por Cristiane Jatene

Na terapia de casal o paciente (ou cliente) é a relação. Os dois componentes do casal serão ouvidos em suas demandas, referentes a relação o e a outra parte do casal conjugal e parental, quando houver filhos. Nem sempre a demanada das duas pessoas que compõem o par conjugal é a mesma e o terapeuta precisa ser capaz de perceber a situação  para ajudar o casal a perceber e encontrar  caminhos de saída.

O terapeuta pratica a escuta terapêutica e procura facilitar o dialogo para que o casal tome as decisões que julgar mais adequadas, a partir da explicitação, em terapia, de seus recursos, possibilidades, limites e aspirações.


A terapia de casal pode ser breve ou longa. Esse e outros pontos são decididos em conjunto, em sessão terapêutica entre casal e terapeuta.


Determinados casais chegam para cuidar de temas específicos e acontece uma terapia focal (por volta de vinte a quarenta sessões), alguns chegam para demandas específicas, mas ao longo do processo decidem se aprofundar em outros pontos e temas. Alguns chegam com o intuito de criarem um espaço de atenção e cuidado da relação, de forma mais geral, sem demandas muito delimitadas.


O casal não precisa necessariamente estar passando por alguma crise, como, por exemplo, os cônjuges terem projetos e vontades distintos. Nem mesmo estarem a discordar em relação aos valores que balizam a vida. Eles podem estar, por exemplo, unidos, mas como dificuldade para enfrentar alguma situação dentro do contexto no qual vivem.


Como todo trabalho terapêutico, a terapia de casal é para quem quer e não para quem precisa. Porque é um processo construído em conjunto entre terapeuta e terapeutizados. Portanto, o terapeuta precisa da colaboração dos que chegam ao consultório para que o trabalho aconteça.


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sábado, 3 de maio de 2025

Ney Matogrosso e Rita Lee - crianças nobres irmãs


Impactada pelo filme sobre a vida e obra de Ney Matogrosso e, especialmente, por sua vida e sua postura diante da vida, que o fez sobreviver a um pai violento, a uma ditadura militar e a AIDS, cheguei em casa e assisti a uma entrevista do Ney no qual ele é perguntado sobre sua relação com sua amiga Rita Lee (Ney foi quem levou Roberto de Carvalho à  casa de Rita, para o jantar que selou o casal e a parceria musical).


Ney respondeu que Rita era estranha, reservada, disse que teve um sonho muito forte no qual duas criancas, ele e Rita, eram irmãos e estavam andando no chão de um subsolo todo forrado de pedras preciosas que subiam pelas paredes, eles seriam filhos de algum homem muito poderoso. Ney disse que poderia parecer loucura, mas, pela força do sonho, ele até hoje os considera irmãos.


Para quem acompanhou a vida artística dos dois, ou assistiu o filme “Homem com H” e leu a autobiografia de Rita “Uma autobiografia” e sua tanatogradia “Outra biografia” é fácil identificar similaridades, apesar das inúmeras diferenças. Rita e Ney eram artistas completos. Cantores, performers, desenhistas e o que mais pudessem ser em termos criativos.


A carreira do Ney tem várias invenções e marcos e um dos mais importantes é quando Ney deixa as roupas que o aproximavam dos bichos pelas roupas que o mostravam mais como ser humano e esse marco é feito pelo sucesso “Bandido Corazón”, autoria de Rita Lee. A guitarra de Bandido é de Roberto de Carvalho, antes do casal e dupla Rita & Roberto.


O filme pontua todas as viradas da vida de Ney pelas músicas mais marcantes de sua carreira. O público e o privado em diálogo constante.


Ney é sobrevivente da violência do pai e da AIDS, Rita é sobrevivente das drogas alteradoras de consciência, as lícitas e ilícitas, e dos lutos familiares que lhe sobrecarregaram a existência.


O mérito do filme e da primeira autobiografia de Rita é nos mostrar que o mais importante da vida é podermos colocar no mundo nossos dons, nossa vocação, nossos talentos, cumprir o destino, no sentindo de não aceitar os entraves como definitivos, porque todos nós teremos que renascer, nos parir, pelas nossas próprias mãos, com ajuda, claro, inúmeras vezes, sendo ou não sendo aquilo que temos de mais próprio. Por isso, é melhor descobrir nossa vocação e podemos renascer nos expressando da forma mais genuina e original possível. Esse é o legado que cada um pode oferecer para a humanidade.


Seja esse legado de curto, médio ou longo prazo. 





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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Os fardos que nos impomos carregar - e a aceitação que nos alforria.

 Era famosa uma mulher em situação de rua, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Ela carregava quatro fardos grandes e se locomovia à medida que os colocava à frente. Colocava um deles à frente, depois os outros três. Quando estavam os quatro no mesmo ponto ela os alcançava e recomeçava o trabalho.


A medida de seu próprio alcance como pessoa era fornecida pelos fardos. Até onde ela poderia carregá-los era até onde ela iria. 


A situação é curiosa porque ela não os largava, ela escolhera carregá-los, mas eram eles que definiam sua mobilidade.


Lembrei dessa história pensando em o quanto nos pesam a ingratidão de pessoas às quais dedicamos amor e compromisso e nos devolveram indiferença. Podemos carregar indignação, perplexidade, mágoa e esses sentimentos pesam e definem até onde conseguiremos caminhar, navegar, voar, amar, nos comprometermos, confiar (fiar junto).


Às vezes a indiferença chega direto, sem a escala da ingratidão. Alguém que está no topo da nossa lista e não nos pede nossa opinião, nossa ajuda, nossa companhia, nossa conversa. Não se lembra de nós e quando se lembra nos quer à disposição.


A indiferença é um tipo de assassinato, como a ingratidão. Ao não reconhecer uma pessoa, mata-se essa pessoa. E cabe a pessoa assassinada aceitar ser morta, carregando a mágoa, a indignação e perplexidade para sempre ou decidir voltar a viver, ao aceitar, ao reconhecer: eu nao errei em amar, em considerar, em doar, em doar-me, o erro não é meu, o fardo não é meu. Posso aceitar a mesquinhez do outro, a pobreza envolvida em devolver desrespeito e me distanciar e fiar novas redes de afetos e apoios.


O processo pode ser longo e doloroso. Mas tem um fim, tem destinos novos e incertos que podem nos trazer novas relações mais humanizadas, diferente do processo insistente de carregar algo morto, necrosado e que limita nossos passos.


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Apresentação

Estresse e Tempo

Estresse e Tempo                                 Por Cristiane Jatene* No nosso tempo, quando falamos em “estresse, de que estresse estamos ...