segunda-feira, 28 de abril de 2025

Por uma saúde existencial - O ser humano é indivisível.

O avanço do conhecimento, o seu crescimento exponencial, ao longo da História da Humanidade, fez este conhecimento sobre o ser humano e sobre a vida serem compartimentados.


Paradoxalmente, ao ampliarmos o conhecimento, o compartimentamos e criamos a figura do especialista. Por exemplo, uma pessoa não se torna médico.

Ela se torna especialista em ortopedia, ou em mão, ou em pé.


Qual o problema dessa divisão? Embora o conhecimento sobre o ser humano tenha sido compartimentado, o ser humano continua um ser integral. Ele não tem corpo e mente, ele é inteiro, um todo, indissociável, interligado, o tempo todo.


Depois de dividir o conhecimento sobre o ser humano em “Disciplinas” criou-se a “Equipe Multidisciplinar”. Idealmente, essa equipe deveria existir sempre e trabalhar em conjunto e não ser apenas a inclusão de diversos profissionais que não se comunicam ou pouco se comunicam, no atendimento a uma pessoa. Essa equipe deveria se saber inserida num contexto socio-politico-cultural e buscar transformar achados de pesquisas em Saúde Publica em Politicas Publicas, para que o conhecimento não se restrinja ao fornecimento de títulos aos profissionais, mas feche seu ciclo, levando conhecimento e melhoria para a sociedade.


Na prática, nem sempre essas equipes são montadas e quando as pessoas são atendidas por todos os profissionais que precisam, esses profissionais-especialistas pouco ou nada se comunicam e esse atendimento ou tem um custo elevado, no âmbito do atendimento particular, ou tem um tempo delimitado, no âmbito do serviço público. Tanto o custo elevado quanto o tempo delimitado tornam-se problemas em Saúde Publica, porque muitos tratamentos precisam de atendimento contínuo ou recorrente, justamente porque a estrutura socio-politica-cultural que o gestou e o pariu permanece igual.


Com o avanço da longevidade e da solidão (pessoas que moram sozinhas e casais sem filhos) e do intenso movimento migratório (muitas vezes os poucos filhos moram fora)* a criação de estruturas de cuidado que considerem a indivisibilidade do ser humano, como um ser integral que sempre será, e considere o contexto sócio-político-cultural, é urgente.


A criação dessas estruturas de cuidado, em medidas diferentes, depende de todos nós.


#saude #saudemental #saudepublica #equipemultidiciplinar #sociedade #politica #cultura #fenomenologiaexistencial #cuidado #psicologia #cristianejatene


*Recomendo a leitura do meu texto “Avanço da solidão, da longevidade, das imigrações, do número de animais domésticos e juventude isolada.” 

https://cristianejatene.blogspot.com/2025/04/avanco-da-solidao-da-longevidade-das.html?m=1


terça-feira, 22 de abril de 2025

Luto, um processo contínuo e peculiar - por Cristiane Jatene

Este texto tem o principal intuito de comentar, de destrinchar, uma fala de Cissa Guimarães no programa “Sem Censura”, da TV Brasil, que pode nos ajudar a entender como acontece o luto e, nesse sentido, nos ajudar a compreender um pouco mais sobre a condição humana.

Cada luto é único, mas algumas características são comuns em quem precisa continuar a viver com uma parte de si morta. Morta para o mundo, morta concretamente, e não morta para quem vive o luto. Este é um ponto importante para compreendermos a dor que o luto por morte de alguém causa: aquela pessoa tão viva em nós, na nossa identidade, não está mais presentificada.

Na minha conta do Instagram, gravei três vídeos sobre luto*. 


O primeiro vídeo foi sobre o luto de pessoas amadas, e que nos amavam, que fizeram parte da constituição da nossa identidade, e que morreram.


O segundo vídeo foi sobre o luto de pessoas vivas que se transformaram a ponto de ser impossível a continuidade da relação. As pessoas seguem vivas, mas a  relação morreu. Essas relações, que morrem com a transformação ou a revelação de um ser que nos era familiar e passa a nos ser estranho, podem ser, inclusive, relações de laços sanguíneos, relações de papeis fixos, como dizemos em terapia familiar, pai e filho, sobrinhos, tios, primos, etc.


O terceiro vídeo sobre o tema “luto” foi sobre o luto de situações e projetos que imaginamos e que não aconteceram. Seja dentro de uma relação, de um trabalho, da vida em geral. O luto do que deveria ou poderia ter sido e não foi.


Minha abordagem terapêutica e de pesquisa, a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica**, vê o ser humano como um constante vir-a-ser. Essa premissa guarda a ideia de transformação.


Há a transformação biológica, obrigatória, todos nós já fomos bebês, crianças, jovens, jovens-adultos e, com sorte, um dia seremos idosos. 


Além da transformação biológica, obrigatória, há a transformação concreta e a transformação emocional.


A concreta, geralmente, fala daquilo que fazemos no plano concreto. Plantamos árvores? Adotamos ou fizemos filhos? Fomos presentes para nossos familiares e para nossos amigos? Realizamos trabalhos e nos realizamos ou nos infelicitamos com esses trabalhos? Acumulamos o dinheiro que o Capitalismo exige para sobrevivermos? E o dinheiro para vivermos, conseguimos? Perdemos dinheiro? Moramos na cidade onde nascemos, mudamos de cidade, de país?


Deixei a transformação emocional por último porque ela é a mais complexa e é opcional. Amadurecer é um processo longo e difícil. Enxergar a dor do outro, provocada por nossas ações. Ter responsabilidade emocional. Enxergar quem nos faz mal e abrir mão, às vezes, de quem amamos, para nos respeitarmos e pensarmos se o amor que nos machuca pode ser, de fato, chamado de amor. Manter nossa vocação profissional quando não ficamos ricos o suficiente para ter o reconhecimento social, por mais que sejamos profissionais de excelência. Aceitar a morte de pessoas que nos constituíram e continuar a renascermos no ritmo das transformações da vida, mesmo sem alguns pedaços de nós, que partiram com essas pessoas. Honrar as pessoas que ficaram e estão ao nosso lado ou próximas. Continuar a viver no descompasso. O tempo de pessoas enlutadas não é o mesmo da velocidade frenética do mundo capitalista que atropela quem ousar parar "à beira da estrada".


A transformação emocional é a mais trabalhosa. Ao invés de amadurecer pode-se escolher cristalizar-se, emocionalmente, adoecer física e socialmente. Existir para sobreviver ou para competir, sem nem saber qual o prêmio no final ou ainda mentir para si mesmo. Como disse o vocalista da banda Legião Urbana "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira".


Na segunda semana de abril de 2025, num dos programas, “Sem Censura”, que apresenta na TV Brasil, a atriz e apresentadora Cissa Guimarães, que perdeu seu terceiro filho, quando este tinha 18 anos, atropelado, falou sobre a perda e o processo que tem vivido desde então.


Quero comentar aqui alguns pontos de sua fala, divulgada num “corte”, em vídeo, pela TV Brasil, nas redes sociais.


Ela diz: “Tem dias que estou um pano de chão velho, não é uma coisa que aprendi, tá feito. Eu não superei nada. Aliás, essa palavra me dá um pouquinho de irritação. Eu não superei, não vou superar, não pretendo, não tenho a veleidade de superar a amputação que foi a passagem do meu filho. Eu tenho um coração amputado, eu sou uma mulher amputada. Eu sou uma mulher aleijada. E tenho a certeza, também, de que eu nunca mais vou ser 100% feliz, mas eu acho que eu posso ser 70% e eu vou correr atrás desse 70%, mas assim, eu vou correr pra caramba para ser, porque essa é minha missão aqui também.” A seguir, ela fala dos outros filhos, netos, do trabalho e dos fãs, explica que não só em nome “disso” vai correr atrás dos 70% de felicidade possíveis e continua: “Acho em nome do Rafa (o seu referido filho), para dar dignidade à vida que foi amputada tão cedo dele, eu preciso ser essa mulher em busca da minha felicidade, em honra ao nome dele, em honra à vida dele. Ele me ensinou muito, durante a vida dele, com seus 18 anos de idade, e ele me ensina muito, eu agradeço a ele todos os dias. Todos os dias eu agradeço a ele a pessoa que eu sou (se emociona), porque se não fosse ele eu não teria chegado onde eu cheguei, dentro, as minha elaborações, as minhas aceitações, a minha compreensão dos outros, a minha compaixão com pessoas, assim, ele me ensinou tudo isso. E essa busca que eu tenho de ser feliz, é ele que todo dia me faz. (...). Agora, eu fiz terapia do luto, que é uma coisa que eu acho muito importante, sabe, e repito sempre, já é um lugar comum, as pessoas já estão acostumadas, eu não perdi nada, eu só ganhei. Eu ganhei 18 anos, do maior amor do mundo, que é o amor de um filho.”


Grifei alguns pontos que acho que nos ajudará nessa meditação sobre o tema. Sempre o ser humano “tem dias”, mais assim ou mais assado, nossa tonalidade afetiva não é fixa, portanto nossa forma de vivenciar um ou vários lutos, também “tem dias”. 


Ninguém supera a morte de alguém que constituiu sua identidade, porque estamos sempre dialogando com essas pessoas. É diferente de um amor ou de uma amizade que acabou, estando os dois vivos. No luto por morte, o que podemos superar é a dor do início do luto, a dor do corte. Porque há um corte. Profundo. Na nossa alma, na nossa identidade. Mas, o luto, que se transforma, como se transforma tudo que diz respeito ao ser humano, existirá enquanto a pessoa enlutada existir.


Algum ser humano é 100% feliz? Não. O ser humano enlutado também não. A vida é feita de momentos, fases. Costumo dizer que há muitas vidas numa mesma vida, porque as fases que vivemos podem ser tão diferentes que parecem outras vidas. Há momentos felizes, fases felizes, mas não sei se 100%. Para quem não vive e para quem vive o luto. O que Cissa talvez queira se referir é ao fato de que uma pessoa enlutada tem sempre um lembrete. Como uma torneira que esta pingando e não se ouve durante o dia, mas a noite, quando vem o silêncio se ouve. No nosso silêncio, quando nos ouvimos, ouvimos as partes inteiras e as cicatrizes, o que esta ali e o que esta presente pela ausência.


Outro ponto importante é buscar através da nossa vida, e daquela vida que se foi, mas ainda vive em nós, honrar a vida que que partiu. Caso seja um amigo com quem você pretendia fazer um filme, na parte tardia da vida (como é meu caso), buscar realizar esse filme por si e pelo que se foi pode ser um dos sentidos encontrados na vida. Caso você tenha nascido, fruto de uma gravidez de risco, com o médico propondo interrompê-la e seus pais resolveram que você deveria nascer (como é meu caso) você pode encontrar sentido em honrar o esforço dos seus pais para que você viesse a este mundo, ou seja, a vida interrompida e os planos conjuntos interrompidos, podem lhe fazer estar em contato com a vida que vive dentro de você, embora não esteja mais presente concretamente. Cissa fala em dar dignidade à vida interrompida.


O processo de aceitar um ou mais lutos de uma vez (no meu caso, tive que aceitar dez lutos sequenciais) também nos faz visitar esforços pessoais e emocionais que nos transformam num nível de radicalidade, caso consigamos enfrentar o processo, talvez só comparado a uma experiência de guerra, deslocamento forçado e refúgio. Porque nossa maior segurança, além da segurança material no Capitalismo, é a segurança das relações. Popularmente, “com quem podemos contar”.


Ela fala em “terapia do luto”. Existe um tipo de terapia que é a terapia focal. Geralmente, tem um tempo determinado e vai focar, como o nome diz, num assunto. No início de um luto, não há outro assunto para o enlutado que aceitou entrar no processo e a terapia pode ajudar, e não apenas a psicoterapia com psicoterapeuta, tudo que for terapêutico para a pessoa pode ajudar. Tem pessoas que preferem desenhar do que falar, andar a cavalo, andar de bicicleta. Cada pessoa precisaria se ouvir para saber. A terapia também pode ajudar nessa auto escuta.


Ela fala que fala com o filho. Aqui há um ponto importante. É muito popular a crença de que quem exerce a dimensão espiritual humana tendo uma crença no transcendente ou praticando alguma religião sofre menos. Acreditando ou não em vida após a morte, acreditando ou não em reencarnação, houve um corte irreparável na sua identidade, no curso da sua vida. Vida que "destruiu o chão que você pisava". Daí a expressão popular “fiquei sem chão”.


E, por fim, ela diz que não perdeu, que ganhou aqueles anos com o filho. Parece contraditório alguém dizer que está amputado, aleijado e, a seguir, dizer que não perdeu nada, que ganhou. Quem está amputado ou aleijado é ela, seu coração, sua identidade, pela interrupção da vida com a qual ela vai continuar a se relacionar enquanto viver. Mas, o ganho dos 18 anos compartilhados existem e é justamente por causa desses anos que existe o luto. E a relação continua e é justamente por causa disso que o luto existe. Não se trata do rompimento de duas pessoas vivas que se separaram. 


É bom ter atenção aos nossos lutos, porque a sociedade capitalista não permite pausas, não permite tristeza, não permite falta de energia (o luto suga muita energia) e, por isso, o luto pode se manifestar em rompantes de raiva, em falta de vontade de agir, em medo de formar novos laços e assim por diante. Ele estaria disfarçado, mas não sumiu. Muitas pessoas, inclusive, fazem ou adotam novas pessoas. Não há um julgamento aqui a respeito desses escapes. Mas, o mais indicado para sermos minimamente saudáveis emocionalmente é conseguirmos aceitar nossas dores (e alegrias), convivermos com elas, e nos renovarmos, renascermos, mesmo, apesar e com elas.


#luto #perda #separação #relacionamentos #felicidade #terapiadoluto #psicoterapia #fenomenologiaexistencial


*Minha conta de Instagram, onde estão os três vídeos sobre luto mencionados: cristiane.jatene


**Sugiro a leitura do capítulo “Método” da minha pesquisa de mestrado para uma aproximação maior com a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica. Link: https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10400.5/98745

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Luz e sombra existenciais*

 A Psicologia, em suas várias abordagens, fala, de diferentes formas, no que está oculto, inconsciente, velado, na sombra, e como o que está ali que precisa ser desvelado, descoberto, conhecido e entendido.

Jung falava que na metanoia da vida, que na época era por volta dos 40 anos e na contemporaneidade deve ser por volta dos 60 anos, tínhamos a oportunidade de integrarmos nossa sombra. Algo como tudo que nos chama, mas que não havíamos vivido até então, poderíamos, por exemplo, mudar de profissão, começar um “hobby” novo. Recomendo o pequeno livro da psiquiatra brasileira pioneira no uso da arte para internos psiquiátricos, Nise da Silveira, “Jung: Vida e Obra”.

A Psicanálise fala num inconsciente substantivado que teria o poder de governar as nossas vidas até desvendarmos esse manancial.

A Psicologia Comportamental fala em função do comportamento. A análise funcional teria o propósito de identificar qual a função de um comportamento considerado disfuncional.

A Terapia Narrativa diz que ao narrar a história do seu problema o paciente pode incluir um fato dissonante que poderá abrir a possibilidade de uma história alternativa da sua vida.

A minha abordagem, Fenomenologia-Existencial Hermenêutica fala que os fenômenos se mostram se velando, se dissimulando, se ocultando. O gerúndio aqui não é um gerundismo inadequado, errado ou a má tradução do inglês. O ser humano para nós é sendo. Porque não está acabado, porque é uma história em aberto, um jogo em curso. O existir humano não se mostra por inteiro. E a verdade que buscamos não é “veritás” (verificação) é “alethéia” (desvelamento)**.

Apesar de todas essas abordagens,vamos falar do que diz Mandela no texto “Nossos Medos”.

Mandela diz que o que nos amedronta é nosso brilho, é nossa luz e que nos apequenarmos para não intimidar os outros não é bom, bom é deixar que nossa luz brilhe e inspirar, dessa forma, que os outros deixem sua luz brilhar.

É uma perspectiva diferente e muito importante. Não se trata de exibicionismo, egocentrismo, brilhar pode ser muito discreto, muito calmo, porque esse brilho fala de uma harmonia de quem brilha consigo, com os chamados de sua consciência.

Caetano já disse na obra-prima “Gente”, que “gente é pra brilhar não pra morrer de fome”.

Muitas pessoas bem alimentadas podem estar famintas. 

A pressão por ter (e/ou manter) um espaço social e profissional, por ter dinheiro, por buscar ou manter relações afetivo-sexuais com pouca ou nenhuma conexão, a busca de uma juventude eterna fantasiosa, as pressões profissionais, a insegurança do planeta, nosso habitar, em tantos âmbitos, pode nos manter apagados e famintos e com medo, como diz Mandela, da nossa luz, que não exige nada mais do que estarmos em acordo com nosso ser, único, original. Parece pouco, mas é muito. Além de muito, pode ser difícil. Por mais doloroso que seja, viver automaticamente, sem deixar a própria luz brilhar pode ser mais doloroso e, aparentemente, mais fácil. 

A questão é se é possível se automatizar até findar ou se a luz tenta sair por todas as brechas que encontra.

#psicologia #terapianarrativa #jung #medo #fenomenologiaexistencial #brilhar #cristianejatene


*Dedico este texto, escrito em 20/04/2025, ao Papa Francisco, um grande farol pelo avanço de uma humanidade mais luminosa e menos sombria, que partiu dia 21/04/2025.

**Sugiro a leitura do capítulo “Método” da minha pesquisa de mestrado para uma aproximação maior com a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica. Link: https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10400.5/98745


domingo, 20 de abril de 2025

Desentendimento por Política, é por valores*

Sou da Fenomenologia-Existencial. Uma corrente filosófica com muitas vertentes. A fenomenologia de Martin Heidegger, que desenvolveu sua “Ontologia Fundamental” e descreveu como ninguém a condição o humana, é a que pratico: Fenomenologia-Existencial Hermenêutica, aplicada á pesquisa e á clínica psicológica. 


A obra de Heidegger foi usada como referencial no século XX por dois psiquiatras suíços , Boss e Binswanger, para desenvolverem uma clínica fenomenológica. E até hoje, nós, que seguimos essa linha, procuramos a prática dessa clínica, desenvolvendo pesquisas e estudos na abordagem, para além do que aprendemos na faculdade de Psicologia e na formação específica na abordagem.


Depois da Psiquiatria, surgiu a Psicologia, uma disciplina que nasce do encontro da Filosofia e da Biologia e, por isso, há linhas com modelo mais médico e outras com modelo mais filosófico.


Embora alguns achem que os cinco anos da graduação de Psicologia e mais as diversas pós-graduações que fazemos sejam inúteis eu não concordo que um psiquiatra possa ser também psicoterapeuta e digo a razão. Terapeuta não pode medicar.  


E o que a Filosofia faz, de modo geral? Pergunta. Através da pergunta e da pesquisa, do rigor do método (que deve respeitar as caracteristicas humanas)**, podemos desenvolver o pensamento crítico.


E o que a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica faz? Ela busca encontrar a “estrutura de sentido”, sob que condições algo é possível.


Para continuarmos, é preciso esclarecer: a Psicoterapia nos ajudar a conhecer nossos valores e preconceitos e no exercício da cidadania (Política) colocamos esses valores e preconceitos em atos, em escolhas.


Depois desse preambulo de historiadora, prolixo, para um texto jornalístico, mas que situa quem quer entender o que vou dizer, pergunto: O que sustenta o desentendimento “por política”, como ele foi possível, no Brasil, a partir de 2016?


E explico porque me desentendi com amigos por valores e não por politica.

Quais os valores de pessoas que aceitam que a constitucionalidade do país seja quebrada e seja instaurado um governo ilegítimo, a partir de um golpe de Estado, fomentado pela vontade de um candidato que perdeu as eleições e não quis esperar as próximas eleições para, talvez, concorrer e estar disposto a ganhar ou perder? 


Quais são os valores de pessoas que aceitam que um juiz desrespeite as leis executando prisões preventivas, conduções coercitivas ilegais?


Quais são os valores de pessoas que aceitam que um deputado, no microfone do Congresso Nacional, Congresso esse que foi fechado durante a Ditadura Militar, exalte o maior torturador da história do país, zombando das atrocidades sofridas por uma estudante brasileira que lutou contra o Regime Militar e que, naquele momento, era presidenta do país?


Quais são os valores de pessoas que aceitam que um ser humano seja preso, num processo com diversas irregularidades, de acordo com os maiores juristas do mundo, para que não seja candidato nas eleições?



Quais são os valores de pessoas que aceitam que dois seres humanos decentes (candidato a presidente e a vice-presidenta) tenham suas reputações injustamente difamadas numa eleição e que essa prática, disseminada em massa, seja paga com dinheiro ilegal?


Quais são os valores de pessoas que aceitam que um juiz, depois de prender sem provas dos crimes dos quais o acusava, o principal candidato à  presidência do país, aceite ser ministro do governo eleito, através de difamação, paga com dinheiro ilegal, defendendo tortura, eliminação de opositores e armamento da população?  


Quais são os valores de pessoas que aceitam que um juiz, funcionário público portanto, aja em benefício próprio, em colaboração irregular com órgãos federais de outro país, que comprovadamente (por documentos fornecidos pelo próprio país) colaborou no Golpe de Estado ocorrido em 1964?


Quais são os valores das pessoas que numa crise sanitária defendem um presidente da república que já em março de 2020 saia às ruas colocando a vida de seus apoiadores e de toda a população em risco, porque pelo cargo que ocupa, de presidente, é um exemplo? 


A briga, meus caros amigos e ex-amigos, não foi por Política, foi por decência, civilidade, honestidade, pela república, pela democracia, pela credibilidade e lisura do Judiciário, pelo SUS, que vem sendo desmantelado, depois de vir sendo construído por 30 anos, foi pela Industria Cinematográfica Brasileira, que emprega milhares de pessoas e vem sendo destruída, pela Ciência e Tecnologia Brasileiras que vem sendo perseguidas. Pelas artes, pela vida das crianças negras mortas por bala, enquanto brincam na porta de suas casas, pelos indígenas, primeiros povos a ocuparem essa região do Planeta Terra, que vem sendo mortos. Pelo meio-ambiente, do qual depende nossa vida, apesar de acharmos que somos superiores, sem sermos, na cadeia natural.


A briga é por civilidade, por humanidade, por responsabilidade social, por senso de comunidade.


A Política é isso: quais são seus valores e de qual lado você está?


Por isso digo que para votar é necessário conhecimento histórico e autoconhecimento. E para ambos é necessária a humildade para aprender.


Eu estou do lado da República, da Democracia, da Constitucionalidade, da Lei, da vida, da dignidade humana, que exige casa, comida, água encanada, estudo, segurança, trabalho e o direito de sonhar, projetar. 


Não preciso estar próxima de pessoas com as quais não concordo, mas não posso querer eliminá-las! Nem por Covid19, nem por fome, nem por bala. A política da morte não é acaso, é uma prática, deliberada. É Necropolítica. E quem fecha os olhos ou apoia, é cúmplice, é responsável.


Na obra “Necropolítica”,  Achille Mbembe descreve como se dá a desumanização do outro, antes de eliminá-lo. E nós avisamos! Ele avisou, o candidato. Ninguém votou enganado. 


Quando uma pessoa lhe disser: “não faz diferença qual político está no poder ou será eleito” , como eu ouvi, tenha a certeza que não faz diferença para ela. E, ela está demonstrando que só pensa nela e nos seus.


E esse lado, que tentam convencer é igual ap outro, é o lado da quebra da constitucionalidade, do Judiciário que não respeita Lei, da força bruta, do lucro que não se importa em escravizar ou semi-escravizar, do colonizado que admira o desenvolvimento dos outros países, mas aceita que o patrimônio público brasileiro seja vendido, que nossos cientistas e artistas sejam desvalorizados.


É o lado de quem é descendente de imigrantes, mas cala diante do racismo, de quem oferece a melhor escola pros seus filhos, mas aceita que outras crianças morram baleadas, é o lado de quem aceita votar em quem defende milícias, é o lado de quem quer conforto e viagens, mas aceita que todos os direitos do trabalhador sejam retirados e fala da ditadura em Cuba, mas aceita a ditadura do Capital.


Na Política você mostra quais são os valores que pautam suas escolhas.


O entendimento ou o desentendimento é por valores.


Fica evidente se estamos falando de pessoas que pregam a filantropia, mas não aceitam a Justiça Social, até porque a Justiça Social acabaria com filantropia, que proporciona tanta visibilidade para quem está no lugar de quem doa e mantém na obscuridade o que é obrigado a viver de doações.


Triste desentendimento, sim, porque é triste descobrir que pessoas queridas aceitam a dor do outro, tranquilamente, enquanto vivem no conforto.


Achava-se que com a pandemia todos entenderiam a importância de um Estado forte e para todos. 


Achava-se.


#política #psicologia #valores #sociedade #egoísmo #coletividade #fenomenologiaexistencial #cristianejatene



*Este texto foi escrito em 2021. A minha perplexidade foi tanta que fui para Portugal e criei a seguinte pesquisa, pela Universidade de Lisboa, encontrada nesse link:


https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10400.5/98745


**No capítulo sobre o Método da pesquisa, no link acima, você encontra maiores esclarecimentos a respeito do “rigor do método”.


Apresentação

Estresse e Tempo

Estresse e Tempo                                 Por Cristiane Jatene* No nosso tempo, quando falamos em “estresse, de que estresse estamos ...