Olha para si é olhar para o entorno

 


Olhar para si é olhar para o entorno

Por Cristiane Jatene*


Podemos concordar que vivemos no mundo, com os outros. Essa é uma premissa da Fenomenologia-Existencial Hermenêutica, a  Fenomenologia da Facticidade, mas acredito que qualquer humano existente sabe do que estou falando, mesmo sem saber quem foi Heidegger.

Nós vivemos num mundo fático compartilhado, com os outros, mais próximos ou mais distantes.

Muito se fala das maravilhas da longevidade, conquistada pela Humanidade. Realmente, é maravilhoso ter mais tempo para ser e encontrar-se com o que ou quem, talvez, não tivéssemos tempo num tempo mais curto.

A pergunta de sempre é: Como? Como será este ser-longevo?

Várias pessoas famosas são entrevistadas apresentando as maravilhas de podermos-ser  60+, 70+, 80+, até 90+, com saúde e produzindo na profissão escolhida.

No geral, essa vida envolve dinheiro. Muito dinheiro.

O Brasil é um país endividado. Mais de 80 milhões de pessoas estão endividadas, quase dez vezes a população de Portugal. Desses, 80% são inadimplentes, simplesmente porque os juros e o “spread” bancários, no Brasil, são exorbitantes e pornográficos. Dito de outro modo, os juros são impagáveis.

A psicoterapia é, sem dúvida, ou deveria ser, um processo de auto desvelamento, de autoconhecimento, mas, afinal, quem é este ser que vai em busca de saber como tem sido, como está sendo, como quer ou pode ser? É este ser que só existe num mundo, compartilhado. Como?

Viver no Brasil hoje, com a economia em alta, o pleno emprego, é viver num país rico e desigual no qual os bancos sequestram mais de 50% do orçamento público para pagamento da dívida pública, assim como tem acontecido com um número enorme de brasileiros. 

As pessoas trabalham, ganham, e o dinheiro recebido não é suficiente. As pessoas recorrem aos empréstimos, quando tem crédito, os empréstimos são impagáveis.

Este não é um problema do Brasil. O mundo todo enfrenta as exigências da longevidade, do custo de vida, da desconexão concreta que gera solidão, ansiedade, insônia, depressão, etc. Mas, a peculiaridade do Brasil, diferente de Portugal, por exemplo, que é um país pobre, dependente de políticas públicas para que grande parte da população não morra de fome, mas bastante equilibrado, é que o Brasil é rico, está entre as dez maiores economias, mas é um país indecentemente desigual, está entre os dez mais desiguais.

Falar sobre qualquer tema de autoconhecimento, Saúde Mental ou de Saúde Existencial, como  prefiro, e desconsiderar que essa concentração de renda afeta a todos nós, enriquecidos, médios, empobrecidos, de uma forma ou de outra, desconsiderar que essa realidade (faticidade) afeta todas as nossas relações (inclusive conosco) e todas as nossas decisões e formas de estarmos-no-mundo é uma forma de escape ou ignorância (escolhida ou imposta) do mundo fático, que faz do autoconhecimento um “umbigoconhecimento” (perdão pelo neologismo improvisado) e não pode ser considerado algo  sério.

Como seremos longevos e sustentáveis?

#autoconhecimento #longevidade #endividamento #cristianejatene

*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa.


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