Estresse e Tempo
Estresse e Tempo
Por Cristiane Jatene*
No nosso tempo, quando falamos em “estresse, de que estresse estamos falando?
O estresse costuma estar associado, tanto no senso comum quanto nos estudos acadêmicos, a grandes desafios e a grandes esforços, mesmo que cotidianos ou rotineiros.
Há muito tempo, quase cem anos, a “Teoria do Stress” mostrou que eventos desejados, como uma festa de casamento e uma viagem planejadas, também causam estresse.
O que é estresse, de que modo que é sentido?
O estresse surge em situações nas quais sentimos que nossas forças não estão sendo suficientes ou que está sendo exigido mais do que podemos oferecer, seja emocionalmente, seja fisicamente ou ambos.
O estresse é sentido como esgotamento. Físico, intelectual, emocional ou tudo junto. É sentido como uma insuficiência de forças para desafios que estão postos. Não diz respeito somente às forças nem ao tamanho do desafio, diz respeito à relação entre as condições das minhas forças e o desafio que terei que enfrentar.
Quando é crônico, rotineiro, pior. Ter uma crise financeira por três anos é pior que por três meses. Ser desvalorizado por duas instituições é pior do que por uma. Decepcionar-se e separar-se de três amizades é pior do que de uma. Passar por doze funerais de pessoas importantes seguidas é pior do que por dois funerais. Os exemplos são infindáveis.
Já foi comprovado que a falta de rotina ou ocupação também causa enorme estresse. Acordar e não saber qual rumo tomar.
Ocorre que nos dias correntes situados e perdidos, seja por quais razões forem, vivem num mundo pouco previsível ou no qual o negacionismo, como o próprio nome diz, nega a previsibilidade que os estudos ofereceram à sociedade, como no caso da emergência climática ou no avanço do fascismo.
Além disso, há uma enorme, nunca vista, concentração de renda, a nível mundial, o custo de vida é altíssimo, as exigências de competências vão além dos dez diplomas que você tem, como, por exemplo, ter que usar redes sociais profissionalmente.
O Neoliberalismo tornou o individualismo de famílias e pessoas em uma sociedade tão patologicamente apartada, que as pessoas preferem medicar-se a compartilhar suas dores com os amigos.
Toda e qualquer questão existencial ou relacional, seja com a sociedade, com a família, com os amigos ou de casal pode virar uma patologia catalogada e, consequentemente, ser medicada, como se houvesse medicamento que gerasse amadurecimento e sumiço das questões e dores existenciais
Sermos plurais e diferentes também é um problema. No geral, seu sucesso como adulto depende da sua conta bancária, como se a sua única contribuição para o mundo deva ser pagar suas contas e não aborrecer ninguém.
O estresse de não ter previsibilidade, de não ter segurança material e financeira, mesmo sendo super qualificado, de não saber o rumo do dia, do mês, do ano, do futuro e o estresse de não ter uma rede de apoio e de afetos segura são enormes. A nossa contemporaneidade traz esses temas! E traz a longevidade, que, com muito dinheiro e cuidado, é ótima. Sem dinheiro e cuidado é um problema social.
Sobre esse estresse prolongado causado pelas enormes incertezas e pelo enorme individualismo do nosso tempo, precisamos sentar em volta da fogueira, que já não há, e conversar.
Sobre esse estresse, precisamos sentar na grama dos parques, que já não existem, e conversar.
Enquanto é tempo.
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*Cristiane Jatene, psicóloga licenciada no Braisl e em Portugal, Terapeuta de Casal e Familia (PUCSP), Fenomenóloga (ABD), Historiadora (PUCSP), Mestre em “Sociedade, Risco e Saúde”, pela Universidade de Lisboa, Terapeuta Certificada Europsy, Supervisora Clínica. Atende online pacientes do Brasil e Portugal.
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