terça-feira, 2 de junho de 2026

Aniversário - Os 59 anos.

                   Aniversário - Os 59 anos

                                              Por Cristiane Jatene*


Tudo que foi possível, foi feito.

Tudo que foi possível, fui.


Tudo que foi impossível, não foi feito.


Tudo que foi impossível, não fui.


Tudo que foi surpreendente, para o bem ou para o mal, foram os impossíveis acontecidos.


Quando  soube o que era possível e impossível, já não havia volta.


Quando soube das surpresas, já não havia ações, de defesa ou fruição maior, a serem tomadas. A surpresa é que nos toma e não nós a ela. 


Havia outros possíveis e impossíveis.


Havia a outra que me tornei.


Havia fins.


Fui me tornando o que escolhi e o que não escolhi. 


Temporariamente.


Dentre o que foi apresentado.


Mistério não se explica.


Se vive.


Daqui a uma um ano, começará a terceira e última parte.


Será igual.


Tudo que for possível, farei.


Tudo que for possível, serei.


Tudo que for impossível, não farei.


Tudo que for impossível, não serei.


Tudo que for surpreendente, para o bem ou para o mal, serão os impossíveis acontecidos.


Quando eu souber o que foi possível e impossível não haverá volta.


Quando souber das surpresas, já não haverá ações, de defesa ou fruição maior, a serem tomadas. A surpresa é que nos toma e não nós a ela. 


Talvez,  não haja mais caminho.


Terei me tornado o que escolhi e o que não escolhi.


Dentre o que foi apresentado.


Mistério não se explica.


Se vive.


Haverá a última outra que me tornarei.


E no fim, haverá o fim.


Findarei, sem, contudo, ter terminado.


Haverá o encontro dos possíveis e impossíveis.


Haverá a despedida de todos os possíveis e impossíveis, de todas as surpresas e de todas de mim.


Haverá a partida de tudo e todas que fomos.


Mistério não se explica.


Se vive.


Ser finda.


*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa, psicóloga certificada Europsy.



#aniversário #vida #morte #fenomenologiaexistencial #cristianejatene

terça-feira, 21 de abril de 2026

O que Psicologia tem a ver com Política, Cristiane?

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      O que Psicologia tem a ver com Política, Cristiane?

                                                        Por Cristiane Jatene*

                           

Essa pergunta tem sido dirigida a mim muitas vezes, nos últimos dez anos! 

Ouvi de amigos, “adoro te ouvir falar de Psicologia, mas não quero falar de Política”. Ou, ainda, “acho que você deveria falar só de Psicologia e não de Política”. 

Quando fiz por três anos as lives “Conversa Cidadã”, um título que criei quando a Alcina me convidou para falar o que dizia para ela em conversas privadas, no espaço que ela tem no coletivo Unidos por Artur Alvim (@unidosporarturalvim), um coletivo da Zona Leste de São Paulo, era comum, mesmo eu sendo historiadora, a pergunta que dá título a este post. 

Vou contar meu percurso e o que acredito. 

Comecei a fazer terapia aos 19 anos, já era bailarina, a seguir, fiz faculdade de História para ser jornalista, fui produtora executiva por quase uma década de programas de humor do Ciro Jatene (@cirojatene), que Jô Soares denominou de “O homem das mil vozes”, por sorte, meu irmão. Depois, fiz Psicologia. 

Quando me formei já fazia terapia há mais de duas décadas e entendi que precisaria ter uma formação em Terapia de Casal, Família e Comunidade. Fiz minha formação na PUC/SP (@puc_sp)

Quando as democracias começaram a ruir, passei a entender que muitas questões fundamentais do existir humano, que eu considerava do âmbito privado, individual ou familiar, eram decorrência direta e inexorável do âmbito social e político. Acho que a Psicologia como tem sido conduzida, nos seus poucos mais de 200 anos de existência, muitas vezes, encobre esse fato, o que considero ruim.

Ex: muitas vezes nossos “problemas de saúde mental” decorrem da forma como somos obrigados a viver para sobrevivermos num mundo capitalista e individualista; muitas vezes, as relações são difíceis porque a inteireza e a sinceridade não condizem com as máscaras sociais que uma sociedade da imagem e da aparência exige. 

Fiz, então, um mestrado na Universidade de Lisboa (@ulisboa) em “Sociedade, Risco e Saúde”, na área da Sociologia, e a pesquisa enorme e profunda que foi minha monografia mapeou os principais temas da contemporaneidade quanto ao embate entre preservação da vida e aprimoramento da democracia (campo progressistas) e necropolítica (extrema direita). 

Minha abordagem em clínica (online, no Brasil e em Portugal) e em pesquisa é a Fenomenologia-Existencial Hermenêutica ou Fenomenologia da Facticidade, que tem como base o pensamento de Martin Heidegger. Fiz minha formação na Associação Brasileira de Daseinsanalyse (@dasein_abd) e tenho o compromisso pessoal e profissional, a partir do meu existir e do meu horizonte existencial, de esclarecer do que se trata essa abordagem. Acredito que essa forma de acesso aos fenômenos humanos e sociais não pode dissociar o individuo ou as relações das fases do ciclo vital, das tragédias e maravilhas pessoais, e do âmbito no qual decorrem. No momento, esse âmbito é um mundo globalizado e colonizado pelas Big Techs e pela enorme concentração de renda a nível mundial.

Muito se fala das “bolhas” criadas pelas redes sociais. O mundo acadêmico, ao separar as disciplinas, criou essas bolhas muito antes. Psicologia e Política podem estar apartadas no mundo acadêmico, mas não no mundo fático, onde nosso existir compartilhado decorre.

Considero que minha formação é plural e decorrência do meu percurso como pessoa e como profissional. Não acredito mais num autoconhecimento que não considere as diferentes fases de vida, com suas mazelas e benesses, nem que não considere de que forma o tempo histórico interfere e delimita cada escolha do ser humano que me procura para que eu traduza seu existir para ele, lhe devolvendo a si mais próximo de si, como dizia minha supervisora Bilê Tatit Sapienza.

Espero ter esclarecido, pelo menos em parte o título desse artigo, e convido a todos que quiserem a participarem dessa conversa.

PS: Para mim, o maior mal da humanidade são as formas de Colonialismo, que propiciam a Necropolítica, as desigualdades e promovem  mal estar social e favorecem os ditos “transtornos” em  Saúde Mental”. Prefiro o termo “Saúde Existencial”. 

#Psicologia #Politica #Fenomenologia #Heidegger #BileTatit #CristianeJatene

*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa.

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terça-feira, 14 de abril de 2026

Olha para si é olhar para o entorno

 


Olhar para si é olhar para o entorno

Por Cristiane Jatene*


Podemos concordar que vivemos no mundo, com os outros. Essa é uma premissa da Fenomenologia-Existencial Hermenêutica, a  Fenomenologia da Facticidade, mas acredito que qualquer humano existente sabe do que estou falando, mesmo sem saber quem foi Heidegger.

Nós vivemos num mundo fático compartilhado, com os outros, mais próximos ou mais distantes.

Muito se fala das maravilhas da longevidade, conquistada pela Humanidade. Realmente, é maravilhoso ter mais tempo para ser e encontrar-se com o que ou quem, talvez, não tivéssemos tempo num tempo mais curto.

A pergunta de sempre é: Como? Como será este ser-longevo?

Várias pessoas famosas são entrevistadas apresentando as maravilhas de podermos-ser  60+, 70+, 80+, até 90+, com saúde e produzindo na profissão escolhida.

No geral, essa vida envolve dinheiro. Muito dinheiro.

O Brasil é um país endividado. Mais de 80 milhões de pessoas estão endividadas, quase dez vezes a população de Portugal. Desses, 80% são inadimplentes, simplesmente porque os juros e o “spread” bancários, no Brasil, são exorbitantes e pornográficos. Dito de outro modo, os juros são impagáveis.

A psicoterapia é, sem dúvida, ou deveria ser, um processo de auto desvelamento, de autoconhecimento, mas, afinal, quem é este ser que vai em busca de saber como tem sido, como está sendo, como quer ou pode ser? É este ser que só existe num mundo, compartilhado. Como?

Viver no Brasil hoje, com a economia em alta, o pleno emprego, é viver num país rico e desigual no qual os bancos sequestram mais de 50% do orçamento público para pagamento da dívida pública, assim como tem acontecido com um número enorme de brasileiros. 

As pessoas trabalham, ganham, e o dinheiro recebido não é suficiente. As pessoas recorrem aos empréstimos, quando tem crédito, os empréstimos são impagáveis.

Este não é um problema do Brasil. O mundo todo enfrenta as exigências da longevidade, do custo de vida, da desconexão concreta que gera solidão, ansiedade, insônia, depressão, etc. Mas, a peculiaridade do Brasil, diferente de Portugal, por exemplo, que é um país pobre, dependente de políticas públicas para que grande parte da população não morra de fome, mas bastante equilibrado, é que o Brasil é rico, está entre as dez maiores economias, mas é um país indecentemente desigual, está entre os dez mais desiguais.

Falar sobre qualquer tema de autoconhecimento, Saúde Mental ou de Saúde Existencial, como  prefiro, e desconsiderar que essa concentração de renda afeta a todos nós, enriquecidos, médios, empobrecidos, de uma forma ou de outra, desconsiderar que essa realidade (faticidade) afeta todas as nossas relações (inclusive conosco) e todas as nossas decisões e formas de estarmos-no-mundo é uma forma de escape ou ignorância (escolhida ou imposta) do mundo fático, que faz do autoconhecimento um “umbigoconhecimento” (perdão pelo neologismo improvisado) e não pode ser considerado algo  sério.

Como seremos longevos e sustentáveis?

#autoconhecimento #longevidade #endividamento #cristianejatene

*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Perguntas de uma mulher brasileira, em 2026.

Perguntas (sem resposta) de uma mulher brasileira, em 2026.

Por Cristiane Jatene*


Perguntas de uma mulher que nasceu do sexo feminino e sempre se indentificou com o gênero feminino. 

Uma mulher que com 12 anos de idade já era olhada como um objeto e que percebeu logo que tinha que se proteger.

Uma mulher que sempre se autocerceou sobre o que vestir e onde andar ou não andar sozinha, por medo de uma sociedade que objetifica a mulher.

Uma mulher que não equipara sexo biológico e gênero, que não se define como “mulher cis”, nem “pessoa que menstrua”; que se define como mulher e tem o direito de fazê-lo. 

Uma mulher que tem ogeriza a qualquer tipo de censura ou ditadura, porque cresceu na ditadura.

Uma mulher que está se sentido silenciada por ter sua identidade, em muitas instâncias, determinada por quem não a conhece e quer lhe impor etiquetas definitórias e protocolos de conduta, como qualquer totalitário faz!

Uma mulher que acha que todos tem direitos a ter direitos. 

Uma mulher que acha que o diferente é diferente, inclusive nas dores, e que grito que quer calar e ameaçar com processo é autoritarismo e censura.

Uma mulher que acredita que atacar uma pessoa e não debater suas idéias, mesmo para discordar e criticar, é censura e desonestidade, que igualar uma pessoa democrática, por ela ter criticas às suas ideias (e não ao seu direito pleno de existir), à um facista ou reacionário (que questiona o direito das pessoas de existir e de ter direitos) é má fé.

As criticas aos reacionários são superválidas e fundamentais para o avanço democrárico e civilizatório, mas estou com algumas perguntas sem resposta.

Seguem algumas das minhas dúvidas:

1) mulher trans chamar as mulheres que nasceram do sexo feminino de imbeCIS (com esse grifo), esgoto da sociedade e mandá-las latir, ao inves de debater ideias, como qualquer misogino faz, pode ? 

2) interditar e censurar qualquer debate ameaçando de processo, aos gritos, esta “tudo bem”? 

3) Estamos proibidos de pensar? 

4) Estamos obrigados a  repetir protocolos de conduta, que nos foram impostos, sob pena de sermos taxadas por quem quer se definir, mas quer definir os outros?

Alguém tem essas respostas?

#mulher #genero #democracia

*Cristiane Jatene é Psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal e clinica online nos dois países, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUC/SP), Historiadora (PUC/SP), Terapeuta Fenomenóloga-Existencial (ABD) e Mestre em “Sociedade, Saúde e Risco” pela Universidade de Lisboa.

segunda-feira, 23 de março de 2026

AUTOCONHECIMENTO & SOCIEDADE

Autoconhecimento é também saber em qual mundo você vive.

Não vivemos encapsulados dentro de nós mesmos. 

Vivemos num mundo compartilhado com outras pessoas.

Somos uma história que se desenrola numa sociedade sócio-histórica cultural e política.

Vivemos na era do Neoliberalismo, que prega um hiper individualismo. Problemas coletivos, como longevidade sem cuidados devidos, solidão, endividamento, exaustão são tratados como problemas individuais e são vendidas falsas soluções atomizadas, que apenas sobrecarregam as pessoas, dificultam ainda mais as relações pessoais e sociais e sobrecarregam os sistemas públicos de saúde.

Tem pensando nisso?

Já tomou alguma ação contra essa realidade?

Nunca havia pensado nisso?

#Autoconhecimento #Sociedade

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Todas as crianças e adolescentes tem família bi-nuclear e todas podem sofrer alienação familiar - não apenas as de pais separados. Por Cristiane Jatene*

 

Todas as crianças e adolescentes tem família bi-nuclear e 

todas podem sofrer marginalização* familiar -

não apenas as de pais separados.

 

Por Cristiane Jatene**

 

A Terapia Familiar e a Legislação acompanham as transformações sócio-psicológicas. Como sabemos, no mundo contemporâneo, o conhecimento é dividido em disciplinas, dada enormidade do conhecimento humano que, embora insuficiente, vem crescendo de forma exponencial ao longo da História da Humanidade.

 

Não há um problema humano que não seja existencial. Os problemas existenciais podem ser patologizados e até medicalizados, mas não deixam de ser existenciais e tudo que é possível na existência humana é passível de escuta e cuidado cuidadoso, para que formas de vivenciá-los, solucioná-los e/ou ultrapassá-los sejam criadas sem “encaixotar” e “etiquetar” o ser humano que o vivencia.

 

A patologização serve para nomear, facilitando a comunicação entre profissionais de saúde, entre profissionais e pacientes e junto ao poder público. A patologização, embora a restrinja, serve , principalmente, para criação de Políticas Públicas. A medicalização serve para retirar sintomas, embora os sintomas devam ser ouvidos para compreendermos o que há com aquela pessoa que desenvolveu aquele sintoma. Sintomas são desenvolvidos involuntariamente para sobrevivermos.

 

Patologização e medicalização não fornecem compreensão, amadurecimento, busca e encontro de formas criativas e próprias de cada pessoa para lidar com seus problemas existenciais, que podem ser denominados como sofrimentos existenciais por serem questões que impedem a plena adaptação à sociedade que esta pessoa vive, mesmo quando a sociedade é extremamente desequilibrada (consumo desenfreado, competitividade, diferenças sociais, violência, etc).

 

Tem sido denominado de “famílias bi-nucleares” às famílias de crianças de pais separados. Essa denominação teria o foco na criança e não nos adultos como a denominação “famílias monoparentais”.

 

O fato é que todas as pessoas tem famílias bi-nucleares, sejam essas pessoas filhas de pais casados ou separados. Consequentemente, a marginalização parental ou das famílias que pertencem às crianças e não apenas aos seus pais, já que as crianças são parte das duas famílias, pode acontecer com pais casados e pode piorar depois da separação do casal conjugal. Há pais que objetificam os filhos, acreditam que os filhos são suas propriedades e, nesse sentido, impedem o pleno convívio, a criação de memória, o estreitamento de vínculos do filho com a família que é do filho, mas não é a sua família, é a “família do outro lado”. É uma forma de tolher parte da identidade do filho, para que ele seja “modelado” como esse progenitor deseja. É violência. 

 

Uma forma comum de marginalização familiar é não permitir que o filho fique sozinho com pessoas da família do cônjuge ou ex-cônjuge, que é da família do filho, mas não é da sua ou que vá a ambientes diferentes com essa pessoa. 

 

Cito o exemplo de um caso que atendi no qual a mãe não permitia que a filha, que ficava sozinha com babás, saísse com a irmã do marido, tia da filha. Essas duas pessoas, tia e sobrinha, só podiam se encontrar ou na presença dessa mãe ou dentro da casa da criança. Como a tia não podia dizer à criança teve que esperar até a sobrinha ter doze anos, a sobrinha pensava que a tia era ausente e essa falta de proximidade, pelo impedimento da mãe, causou grande sofrimento para tia, bem como tensões e discussões na família do pai. Era um pacote perfeito, em um só ato a mãe impedia a filha de ter acesso aos familiares que lhe pertenciam e criava um afastamento da família do marido, para que não só a filha, mas o marido ficasse privado de sua família. A mãe não era a mãe da família, era a dona de objetos que ela manipulava. Evidentemente, essa mãe nunca se tratou e o diagnóstico e a patologização recaiu sobre a filha que, como todo paciente identificado, denunciava o desequilíbrio criado pela mãe. 

 

Por exemplo, era uma tradição na família paterna dessa criança haver comemoração de mesário até que as crianças completassem um ano de idade. A tia paterna tentou por onze meses fazer a festa de mesário da criança, como a tiveram as outras crianças da família, mas a mãe nunca permitiu, com desculpas variadas, provocando conflito entre a tia paterna e o pai da criança, ou seja, não permitiu que a filha recebesse onze festas de comemoração da sua vida, até completar um ano, como era tradição da família paterna da criança.

 

Quando essa família se separou, a alienação que a mãe fazia em relação à família do pai, passou a incluir o próprio pai. Numa época em que as separações tem, além da guarda compartilhada, moradia compartilhada, este pai não tinha esse direito. Via seus filhos em dias e momentos acordados no acordo de divórcio. Uma mãe que cria filhos tolhidos emocionalmente e tolhidos em relação a sua identidade. Tal qual filhos adotivos, eles não conhecem parte da sua origem e não porque foram adotados, mas porque foram privados, pelos abusos da mãe.

 

A marginalização parental ou a marginalização familiar não se resume a “falar mal” do pai ou da mãe ou da família materna ou paterna, a alienação é também impedir que o filho entre em contato com parte da sua história e da sua identidade e crie vínculos e memórias com as duas famílias. A história de cada ser humano começa muito antes dele nascer e todos nós, caso isso seja possível (quando não somos adotados, refugiados, etc) temos o direito a ter acesso a toda a história.

 

De início, quando as separações de casais começaram a ser frequentes, o nome que se dava era “famílias monoparentais”, ou seja, famílias que tinham apenas um dos componentes do casal parental que, mesmo quando o casal conjugal se separa ou recasa, permanece sempre o mesmo. As crianças e adolescentes podem ter padrastos e madrastas, às vezes até mais de um a depender dos casamentos de seus pais, mas os pais biológicos são sempre os mesmos.

 

Acredita-se que a denominação posterior, família bi-nuclear, para denominar a família de filhos de pais separados seja melhor porque traz o foco para a criança, mas filhos de pais casados também tem famílias bi-nucleares. 

 

Todos os seres humanos, tem familias bi-nucleares e todos nós temos direito a ambas as famílias, temos direito à nossa identidade.

*Orginalimente, por ignorância quanto a postura do criador do termo “alienação parental”, que afirmou que as mulheres estavam histéricas e criando histórias, eu usei no texto alienação. Depois de tomar conhecimento dos fatos, ouvindo o próprio autor falar, na série “Allen X Forrow”, da HBO Max, decidi mudar o termo e o que eu escolhi foi “marginalização”.

#familia #terapiafamiliar #saudemental #alienaçaofamiliar #saudepublica #fenomenologia #familiabinuclear #criança #adolescente #madrasta #padrasto

 

**Cristianes Jatene é psicóloga licenciada no Brasil e em Portigal, especialista em terapia de casal e família pela PUC/SP, historiadora, terapeuta fenomenológica-existencial hermenêutical pela Ass. Bras. de Daseinsanalyse, mestre em Sociologia pela Universidade de Lisboa. Psicoterapeuta, atende online pacientes do Brasil e de Portugal, criadora e facilitadora das Oficinas Autobiográficas com o Baralho de Palavras.  

Email: oficinasautobiograficas@gmail.com

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Autobiografia, literatura terapêutica - por Cristiane Jatene.

                     Autobiografia, literatura terapêutica 

                                                            

                                                       Cristiane Jatene*   

Nos últimos dias, em setembro de 2025, uma senhora de idade avançada, crítica literária, disse que Annie Ernaux, Nobel de Literatura, que escreve sobre suas experiências, e Edouard Louis, idem, são interessantes, mas não são Literatura.

 

Digo que a senhora tem idade avançada, porque apesar de não ter me apaixonado pelos escritos de Ernaux e Louis, estou perto de chegar aos 60 anos e fui formada por Zélia Gattai (“Anarquistas, graças a Deus”),  Marcelo Paiva (“Feliz Ano Velho”), Simone de Beauvoir (“Uma morte muito suave”), Karen Armstrong (“Escada espiral”), Gay Talese (“Vida de escritor”) e seus escritos autobiográficos, embora tenha gostado de ler Kafka, Camus, Tolstói, Machado, Kundera, Woolf.

 

Mesmo tendo esses livros autobiográficos como os mais importante para mim, essa dúvida sempre me acompanhou, esses escritos são respeitáveis?

 

De lá pra cá, dos meus 12 anos para os meus 58 anos, o que mudou é que não tenho a menor dúvida da importância literária e existencial desses escritos. Em primeiro lugar, esses escritos foram fundamentais para seus autores e exatamente por essa razão foram e continuarão a ser para milhares de leitores mundo afora. 

 

Em segundo lugar, ninguém me garante que os autores de ficção não estão falando da vida deles, com roupagem de ficção.

 

O que é que temos de mais legítimo além de nossas experiências vitais?

 

Em terceiro lugar, meus pintores favoritos, Edward Hopper e Van Gogh pintam seus “quintais”. A série que mais gosto do artista plástico brasileiro Claudio Tozzi, e gosto imenso de sua obra, é a série na qual ele retrata, claro, a seu modo, com base em sua experiência (autobiograficamente) as figuras humanas das “Batalhas da Rua Maria Antônia”[i]. Ele é hoje um senhor que sente pena de que o Brasil que a geração dele sonhou, bem vivenciados nas “Batalhas da Rua Maria Antônia”[ii], tenha sido barrado pelos anos de ditadura, pelos anos Temer/Fascismo (não menciono o nome do presidente miliciano) e o atraso imposto.

 

Tenho um leitor atento dos meus textos, antes de publicá-los. Quando não falo de mim nos textos, ele considera os textos mais maduros. É um arquiteto, formado pela USP e fotógrafo (esse título eu lhe concedi).

 

Tenho uma leitora atenta dos meus textos, antes de publicá-los, formada em Letras na Universidade de Lisboa, que diz que meus textos provocam-lhe sensações físicas e que essa visceralidade ou crueza dos meus textos é que os fazem bons, quanto mais falo das minhas experiências, sem filtros, mais ela gosta dos textos. Segundo ela, esses textos deveriam ser conhecidos por muitos, ela os acha terapêuticos.


Talvez, os dois argumentos sejam válidos. O fato é que quem escreve porque é escritor e não porque quer impressionar, escreve o que o que a escrita quer escrever. 

 

Meu argumento, embora eu goste de debater, para o meu primeiro “crítico” é simples: alguma coisa que eu escreva não fala de mim?

 

O personagem Jesse, no segundo filme da trilogia, “Before Sunset”[iii], escreve um livro autobiográfico, e numa conversa literária em Paris, ao ser questionado sobre se o livro era autobiográfico ele responde: “O que não é autobiográfico? Vemos o mundo pela nossa fechadura”. 

 

Se eu vou assistir o filme baseado no livro de Milton Hatoum e ele me remete diretamente aos diálogos que eu tive com a Mariana e o texto é de minha autoria, o texto vai ser sobre minha experiência ao ver o filme. Minha experiência com o filme é lembrar da Mariana, então ela vai estar no meu texto[iv]. Não há porque ser asséptica e esconder minha humanidade. A vida é enlameada mesmo, meu texto, também.

 

Minha tese para me formar em terapeuta de casal e família é sobre isso: pra falarmos de nós, falamos de outros e da sociedade na qual vivemos e pra falar da sociedade na qual vivemos e dos outros, falamos de nós, até porque não temos como sumirmos do que fazemos. O titulo é “A autobiografia como jornada terapêutica – uma leitura sob a ótica da Terapia Narrativa” (PUC/SP, 2012). Usei livros, filmes, exposição. Tudo autobiográfico.

 

Em 2018, eu mesma produzi uma obra autobiográfica, “Baralho de palavras”, uma experiência na qual escrevi uma palavra por dia e montei esse Baralho. No mesmo ano, como representante da Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP), ministrei um Workshop no Congresso Nacional “Psicologia: Ciência e Profissão”. O título do meu trabalho: “Autobiografar-se no contato lúdico com a palavra”. Esse trabalho se desdobrou nas “Oficinas Autobiográficas” que ministro onde me convidam, com a Universidade Portucalense e a Academia Mundo das Artes, filiada a Universidade Lusófona, ambas em Portugal. Isto para dizer que não só me formei pessoalmente por autobiografias, mas contribuí produzindo conhecimento a respeito do tema e produzindo minha obra autobiográfica, que serve para outras pessoas se autobiografarem, é um instrumento de autoconhecimento.

 

A noção de que haveria a possibilidade de sumirmos do que fazemos, sermos neutros, vem da ideia de neutralidade herdada das ciências naturais que não se aplica a nada que é humano. Não podemos ser neutros. Seria um fingimento, uma forma de desumanização, de tentarmos ser o que não somos, essencialmente, como humanos.

 

O existir humano, sempre incompleto, contextualizado, parte decidido por nós pelo que nos é apresentado como possibilidade realizável, parte imposto pelas

circunstâncias e em constante transformação, não é um laboratório de experimentos com variáveis controláveis.

 

As teorias que criamos, incessantemente, sobre nós, sobre o mundo, sobre a forma pelas quais podemos acessar o ser humano e a sociedade tentam dar conta do que nos escapa o tempo tempo. Parte do sofrimento humano consiste em ser finito, parte consiste em querer controlar o incontrolável, embora o sofrimento e a alegria sejam inúmeros, em adição.

 

Quero a coragem de Gattai, de Paiva, de Beauvoir, de Armstrong, de Talese e de Martha Nowill, que acabei de ler. Ela escreveu um livro visceral (“Coisas importantes também serão esquecidas”), porque não tentou em nenhum momento agradar aos identitários e aos puristas da Literatura. Sem medo de parecer isso ou aquilo. 

 

O livro é tão bom porque ela se permite ser o desenrolar historial que é (todo ser humano é um desenrolar historial e todos nós temos o direito de ir sendo como nos é possível e, em certa medida, desejado, claro, desde que isso não mate ninguém). O ser humano é sendo, porque está em curso e finda, não se sabe quando, sem acabar.

 

Sob risco de me tornar repetitiva, por reafirmar em diversos textos a mesma premissa, insisto, história não é passado, é um desenrolar que une as três ekstasis de tempo, o sido (que como fato passa, mas como significado e ressignificado permanece), o sendo (onde as três ekstasis se unem, estamos sendo indo à frente, nos projetando nas possibilidade de ser, nos vendo como mortais lá na frente, retomando quem fomos) e o vir-a-ser (que é a primazia do ser humano, porque somos um constante vir-a-se, nunca acabado).[v]


Estamos contantemente deixando-de-ser e vindo-a-ser. 

 

Minha supervisora, Bilê Tatit Sapienza, que tem uma enorme contribuição para a clínica daseinsanalísta, com seus livros, insistia para que eu escrevesse, porque, segundo ela,  eu tinha muito a dizer e “mutatis mutandis, você seria como o avarento se não der ao mundo seus escritos”, me disse uma vez. Eu argumentava que não era excelente na forma. Ela dizia, “a forma se corrige, a falta de conteúdo não há possibilidade de resolver”.

 

Escrever é sobre precisar compartilhar e não há nada mais profundo do que compartilhar a própria experiência, a única coisa que temos.

 

Academicamente, pesquisando sob as premissas da Fenomenologia Existencial-Hermenêutica, cujo ponto de partida, tanto na clínica quanto na pesquisa é perguntar: Como esse fenômeno é possível, o que sustenta sua aparição?, escrevi no meu mais recente trabalho acadêmico o trecho com o qual termino esse texto, que pode ser encontrado na página 5:

 

“A pesquisa se dá porque algo no mundo fático do pesquisador lhe apareceu velado, incompreensível. A razão da investigação é o desvelamento do fenômeno. O pesquisador é sempre aquele ser afetado pelo fenômeno que busca pesquisar, para desvelá-lo[vi]. Buscar o que sustenta e constitui o fenômeno é buscar um desvelamento possível por aquele determinado pesquisador que, ao reconstruir o fenômeno, o fará interpretando-o, a partir do que o próprio fenômeno, no processo de ser desvelado, mostra. Sempre sabendo que o fenômeno não se mostra por inteiro, por isso, o desvelamento é situado e autoral, feito contextualizado, temporalmente e espacialmente, por um determinado pesquisador1[vii].”[viii]

 

 #autobiografia #literatura #autoficção #terapêutico #autoconhecimento #arte #livros


[v] Essas e todas as noções e definições de ser humano apresentadas no texto tem como base o livro “Ser e Tempo” de Martin Heidegger.

[vi] Não é aquele ser neutro. Por isso, ele terá que explicitar suas razões e sua “posição prévia, visão prévia, horizonte prévio”, que é de onde sempre partimos, conforme descrito no parágrafo 23 de “Ser e Tempo” (Heidegger, 2007), seu ponto de partida, a respeito de seu tema, do fenômeno investigado.

[vii] Podendo haver congruência com outras pesquisas ou outras abordagens metodológicas, ao ser a pesquisa publicizada para a comunidade acadêmica.

[viii] A integra da pesquisa encontra-se no link: Repositório da Universidade de Lisboa: Uma análise compreensiva-hermenêutica da resistência social pró-ciência contra a gestão anticiência da pandemia Covid-19 do governo federal do Brasil.

*Cristianes Jatene é psicóloga licenciada no Brasil e em Portigal, especialista em terapia de casal e família pela PUC/SP, historiadora, terapeuta fenomenológica-existencial hermenêutical pela Ass. Bras. de Daseinsanalyse, mestre em Sociologia pela Universidade de Lisboa. Psicoterapeuta, atende online pacientes do Brasil e de Portugal, criadora e facilitadora das Oficinas Autobiográficas com o Baralho de Palavras.  

Email: oficinasautobiograficas@gmail.com

Apresentação

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